ESTOU PERDIDO, DEVO PARAR? NÃO SE PÁRAS ESTÁS PERDIDO! Goethe

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quarta-feira, 20 de julho de 2011

No Coração Desta Terra

1. Hoje, o meu pai trouxe para casa a sua noiva. Atravessaram planícies, toque-toque, numa carreta puxada por um cavalo, com uma pena de avestruz a adejar na cabeça, suja por causa da longa caminhada. Ou talvez tivessem sido puxados por duas mulas de plumas - também era possível. O meu pai vinha de fraque e cartola, a noiva trazia um chapéu de aba larga e um vestido branco apertado na cinta e no pescoço. Não posso contar mais pormenores a não ser que os invente, já que não os vi chegar. Estava no meu quarto, de portadas fechadas, no lusco-fusco esmeralda do fim de tarde, a ler um livro ou, o que seria mais provável, deitada, com uma toalha húmida nos olhos por causa da enxaqueca. eu sou das ficam no quarto a ler, a escrever ou curar a enxaqueca. As colónias estão cheias de raparigas assim, mas nenhuma, acho eu, tão radical quanto eu.


J.M. Coetzee (n.1940), escreve em 1977 "No Coração Desta Terra".
Um discurso obcessivo, prisioneiro da mente alucinada de Magda, uma "menina" colonial a quem a solidão numa quinta agreste da estepe africana, empurrou para a loucura.
Apontado como uma metáfora da situação social, cultural e rácica da África do Sul, o livro fez-me lembrar a estrutura narrativa de "Estorvo", o primeiro livro de Xico Buarque, de que não guardo boa memória.
Apesar do contexto concentracionário do monólogo, comum a ambos os livros, Coetzee  revela uma mestria literária que faltou em Buarque.
Livro duro, sobre uma realidade em carne viva, em que o discurso vai vagueando por diferentes alternativas, aparentemente incompatíveis, mas provavelmente complementares - um pai distante ou um pai violador?, uma filha assassina ou uma cuidadora perdida?, uma patroa branca violada ou fantasias virginais doentias?, uma jovem madrasta concorrente ou uma criada violentada? ou tudo isso e mais a inexorável decadência de uma sociedade bipolar, na eminência de um conflito de povos e culturas?!

Escrita seca a condizer com a paisagem e o contexto histórico, no primeiro sucesso de uma carreira literária que passaria pelo Nobel - um autor a revisitar!

terça-feira, 14 de junho de 2011

"CONNECTICUT YANKEE IN KING ARTHUR´S COURT"



Mark Twain, considerado o "pai" da literatura americana, escreve em 1889 "Um americano na corte do Rei Artur". Trata-se de uma escrita mordaz e despreocupada, que relata uma viagem espaço temporal de um Yankee de Conneticut que aparece "mágicamente" na Bretanha do século VI, na sequência duma pancada na cabeça.
Dotado dos conhecimentos técnicos e científicos da era Industrial, Hank Morgan corresponde para o bem e para o mal, à imagem que ainda hoje temos dos americanos - empreendedores, autoconvencidos, desconhecedores e indiferentes às realidades culturais, religiosas e sociais, que não as suas.
Introduzindo-se com mestria no círculo próximo do Rei Artur, conseguindo desacreditar o influente mago Merlin e substituindo-se no seu papel de grande feiticeiro - neste caso recorrendo a meios técnico-científicos com 14 séculos de vantagem e não à credulidade popular, o nosso Internauta ascende ao estatuto de The Boss ("o Mestre", na tradução portuguesa), implementando uma série de iniciativas que vão desde a publicidade e o marketing, à formação de escolas técnicas, onde pontifica mesmo uma West Point medieval, onde se formarão os seus lugares tenente.
Despreocupado com a coerência plausível do relato e dotado de um humor próximo do non-sense (retomado quase um século depois por Monty Python e sequelas), Mark Twain equipa a Inglaterra dos cavaleiros da Távola Redonda, de Telégrafos, Caminhos de Ferro, Centrais Elétricas e consegue pôr uma nobreza que considerava inútil e ignorante a maquinistas e guarda freios. E como não tenha sido fácil fazê-los desistir das suas pouco práticas armaduras, cria uma unidade de cavaleiros encasulados em aço, montados em rápidas bicicletas...

De leitura agradável e sempre com um sorriso na mente, o leitor tem permanentes motivos de divertimento, como o nome carinhosamente dado por Sandy, especializada nos relatos infindáveis das façanhas do marido, à filha que concebe do americano - Alô Central, a palavra com que esta abria as comunicações telefónicas.

Contudo o livro não se resume ao resultado da prodigiosa imaginação de Mark Twain em completa roda livre. Reflete de forma muito incisiva sobre questões de todos os tempos - a irracionalidade das massas populares e o papel da crendice e da religião nesse processo, a desconfiança com o novo, a necessidade de recorrer ao mágico e a uma aura de superioridade, em vez da evidência da razão, para se afirmar junto do povo e do poder!
E o fim, é a mais eloquente prova da máxima que "não adianta ter razão antes do tempo" e de que nada se consegue contra tudo e contra todos - mesmo que se detenha o poder máximo, é indispensável ter o apoio e a compreensão dos demais, para se conseguir afirmar. Verdade, que infelizmente ainda hoje os americanos (e outros) parecem não ter percebido.
 O livro e a sua "mensagem" principal são de uma atualidade gritante - o "Boss" acolitado pelos seus 52 agentes West Point, consegue, mercê de uma engenhosa tática militar, atingir uma supremacia indestrutível, mas vê-se na iminência de um extermínio em massa, já que não consegue conquistar ninguém para o seu campo. E num arremedo final de bom-senso, apesar do seu poderio supremo, desiste do seu sonho de dominação, abandonando todos os projetos.
Quem olha, despido de preconceitos, para as intervenções dos USA no Vietnam, no Iraque, no Afganistão, na Líbia e aprecia as suas habituais saídas de sendeiro dos teatros de terror que instala, percebe que esse erro já tinha acontecido no sec. XIX, com um Yankee de Conneticut e que houve um escritor de nome Mark Twain que escalpelizou as razões desse infortúnio, sem daí ter resultado grande proveito para a nação que o entronizou como escritor.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Fanny Owen



" O rio Douro não teve cantores. Teve-os o Mondego e o Tejo também. Mas, para além das cristas do Marão, em vez do alaúde e da guitarra havia o repique dos sinos ou o seu dobrar espaçado. Havia o tiro certeiro dos caçadores de perdiz, lá pelas bandas da Muxagata e do Cachão da Valeira. E o clarim das guerrilhas ouvia-se através da poeira de neve que cobria os barrancos de Sabroso."

Agustina Bessa-Luís escreve Fanny Owen (1979) como corolário dum trabalho de investigação para os diálogos de Francisca (1981), encomendados por Manoel de Oliveira.
É para mim desde logo agradável o entorno - a rua de Cedofeita, Vilar de Paraíso, a Foz, o Douro, descritos por alguém que conhece e ama essa geografia, que também é a minha.
O romance, assente em factos reais a que Agustina tenta ser o mais fiel possível, recorrendo mesmo a um trabalho de colagem, pondo na boca das personagens frases extraídas dos seus diários, livros ou artigos, comporta dentro de si um segundo nível, ensaístico, em que a autora comenta os sentimentos e acontecimentos, numa perspetiva psicanalítica de distanciamento e interpretação.

A história de Francisca Owen Pinto de Magalhães (1830-1854), no centro de um doentio triângulo de intriga e amor, que opõe Camilo Castlo Branco e o seu "amigo" José Augusto, termina com a morte do infortunado casal.
Agustina transporta-se e transporta-nos, com mestria, para o ambiente romântico da época, onde o amor para soar a verdadeiro tinha que ser mitificado, sendo a felicidade inconcebível sem o adorno do sofrimento.

Não tendo tido nós um Goethe ascético, angustiado, mas profundo, tivemos umas décadas mais tarde uma sua versão manhosa, interesseira e macabra, na figura de Camilo ( Agustina nas suas impressões embebidas no romance, cita profusamente Holderlin (1770-1813) contemporâneo de Schiller e Goethe, também ele declarado louco na sua época.).

Francisca morre mais de amor do que da tuberculose que seguramente tinha?
E as perturbações do humor e do comportamento não seriam também elas consequência da doença, que integra nas suas formas avançadas também uma componente psiquica e emocional bem documentadas!?
E José Augusto seria apenas um doente emocional, refém do seu pretenciosismo provinciano e literário, ou estaria dependente do consumo de opiácios (o miraculoso láudano), de uma overdose dos quais viria provavelmente a falecer, no mesmo ano de Fanny!?

Esta é uma história real, que demonstra que o universo literário de Camilo, não se afastava da sua realidade existencial - relações de amor/ódio, uma burguesia sem referências morais ou culturais sólidas, amigos insanes capazes de solicitar uma autópsia para apurar da virgindade da sua esposa, de quem guardam o coração em álcool, como relíquia macabra de uma veneração doentia!
Um grande romance!


PS: Muito oportunamente esta obra sucedeu no Clube do Livro à "Cidade e as Serras", já que a Quinta do Lodeiro de José Augusto Pinto de Magalhães (na foto), para a qual Fanny foi viver após o seu rapto e atá à sua morte, dista uma pequena caminhada da Quinta da Vila Nova, de Tormes, onde Jacinto viveu o seu romance bucólico e solar.

Como o mesmo espaço geográfico, pode albergar paisagens de alma tão diversas - os girassóis que iluminaram Jacinto na sua chegada a Tormes, deram lugar aqui a crisântemos agoirentos entre brumas de desconfiança e ciúme.


sexta-feira, 8 de abril de 2011

A Cidade e As Serras



Publicado em 1901, um ano após a morte de Eça de Queiroz, que não terminou sequer a revisão do manuscrito, A Cidade e as Serras é um livro divertido, muito ideológico e que mantém uma enorme actualidade (isto é, é intemporal, como toda a grande literatura!).

De todos os livros do Eça que em tempos li, era aquele do qual guardava uma imagem mais nítida e a impressão de mais ter influenciado a minha visão do Mundo.

A perspectiva mordaz sobre a civilização que constitui a primeira metade do livro, é muito próxima da que reaparece em Playtime (1967) de Jacques Tati - uma sociedade obcecada pela novidade, pelos gadgets tecnológicos e pelo formal em geral, mas desencantada e vazia de valores e objectivos concretos.
Eça de Queiroz contrapõe na segunda parte um romantismo bucólico, de exaltação da vida simples e natural do campo (neste caso, o Douro), ambiente em que Jacinto desabrocha para a realidade da vida (planta as árvores e tem os filhos!), conduzido pela amizade do seu companheiro serrano, Zé Fernandes.

Paris, retratado como o farol de uma civilização que só valoriza o lucro e o prazer, aparece como a quimera enganadora, enquanto a as rústicas terras de Tormes são descritas como uma bênção divina.
É um Eça de Queiroz culto, cosmopolita, que já tudo viu, leu e criticou, aparentemente reconciliado consigo mesmo e com o seu país, este que transplanta um sofisticado e enfastiado Jacinto, de Paris para os xistos durienses e o deixa feliz na sua pele de iluminado aristocrata, a exercer um humanismo caritativo.

Livro sobre o tédio do excesso - de bens, de informação, de tecnologia - é muito oportuno para uma geração (que inadequadamente chamam de rasca) que cresceu sem ter de enfrentar dificuldades materiais, de lutar pela sua liberdade, com acesso a conhecimento e informação nunca antes existentes e que parece tal como Jacinto enfastiada, sem motivação e que se vê no limiar de uma situação nova para a qual não estava preparada.

A única diferença é que não disporá dos "cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival" de Jacinto, que lhe permitiram a sua diletância de socialista idealista.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Philip Roth




De Philip Roth, nascido em 1933 e considerado um dos mais importantes escritores americanos vivos, acabo de ler o seu terceiro romance (O Complexo de Portnoy -1969) e já levo a meio "A Mancha Humana" (2000).
De Roth direi que além de ser prolífico (31 romances desde a sua estreia com "Adeus, Columbus" - 1959) e de ter recebido um número infindável de prémios literários, também é :

Um homem - a sua escrita tem uma visão indiscutivelmente falocrática, roçando muitas vezes o misógenismo intolerável. As personagens femininas são descritas na fronteira da anormalidade e tirando a sua mãe, figura omnipresente na sua obra e na sua cabeça, não parece morrer de amor por nenhum exemplar do género.
A sua primeira mulher, Margaret Martinson, de quem se divorciou em 1963, terá sido inspiradora da personagem da Macaca, que tanta perturbação causou a Alexander Portnoy, e da qual não se pode dizer que tenha sido propriamente bem tratada na literatura. A sua segunda mulher, a actriz inglesa Claire Bloom, sentiu-se motivada a publicar uma autobiografia (Casa das Bonecas - 1996), no ano seguinte ao seu divórcio, em que expunha o difícil carácter de Philip. Em resposta foi retratada em "Casada com um Comunista", como uma mulher que arruína o seu marido, ao publicar uma autobiografia pormenorizada do seu casamento.

Um judeu - a obsessão judaica é talvez o selo de água mais distintivo da sua obra. O enquadramento cultural, a culpa, o sentimento de rejeição social e a necessidade  da sua superação, estão omnipresentes.
No Complexo de Portnoy, os traumas sexuais são assumidos como uma herança religiosa e educacional da sua origem judaica. E embora a moral judaica seja particularmente castradora e condicionadora, a maioria das circunstâncias relatadas são comuns a outras culturas e particularmente a minorias em fase de ascensão social. A memória duma mãe que não deixa respirar, será comum a todas as culturas mediterrânicas e não só.
Ainda ontem o Público trazia um extenso artigo sobre Amy Chua, uma professora de direito de Yale, de origem chinesa, no centro de uma polémica nos Estados Unidos, por defender que a educação altamente condicionadora a que submeteu as suas filhas, está na origem do sucesso escolar e económico da sua comunidade.
Resta saber, quando chegará a sua vez de pagar em psicanálise o que pensa ter ganho na escola!

Um americano, de Newark, New Jersey - Roth fala do que sabe e por isso o roteiro das suas personagens é o do seu próprio percurso. Nascido na classe média judia de Newark, faz por lá passar quase todos os seus personagens, constituindo-se um observador atento e perspicaz da sociedade americana. Curiosamente, Portnoy, um tarado sexual que entrava em erecção até na presença duma freira, não consegue consumar uma relação quando visita Israel, a Terra Prometida.
Em "Conspiração contra a América" inspirado numa hipótese real (a apresentação do herói aeronáutico Charles Lindberg, simpatizante do nacional-socialismo, como candidato do partido republicano nas eleições de 1940, contra Roosevelt), reescreve a história do Mundo, visto por um miúdo judeu de Newark, assumindo a vitória da direita radical na América, numa altura em que na Europa decorria a segunda grande guerra ...

Nathan Zuckerman -  Se todos os livros são aparentemente sobre si próprio, ainda assim sentiu necessidade de criar um alter-ego, escritor de sucesso, que aparece em 10 dos seus livros.
Embora aparentemente o tenha morto em 1987 em Counterlife ("O avesso da vida"), reaparece em "A Mancha Humana", incontinente, após uma prostectomia, e confidente de Coleman Silk, um reitor universitário jubilado, septuagenário, que alimenta com Viagra uma relação com uma mulher de 32 anos.
Roth que se assume como um criador de falsas biografias - ele próprio sugere que a sua infância de classe média era demasiado banal para poder ser relatada - adianta que basta imaginar as pessoas normais a agirem sob pressão, para se transformar a realidade em arte.

Um génio literário - Se há 15 anos Roth aparecia na lista dos 10 mais importantes escritores americanos vivos, hoje merçê da sua pujança literária desde os anos 90, aparece no topo dessa lista.
E a leitura de Roth é efectivamente viciante.
Caracterizando com precisão as suas personagens, não dispersando a atenção do leitor por meandros desnecessários, criando a tal falsa ilusão de descrever factos, dando-lhes uma credibilidade autobiográfica, dominando a técnica da escrita com uma mestria única, Roth lê-se com deleite, mesmo quando o tema nos possa desagradar e a sua perspetiva incomodar. E essa será provavelmente a maior prova do seu génio!

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Complexo de Portnoy



“Ela estava tão profundamente entranhada em minha consciência que, no primeiro ano na escola, eu tinha a impressão de que todas as professoras eram minha mãe disfarçada. Assim que tocava o sinal ao final das aulas, eu voltava correndo para casa, na esperança de chegar ao apartamento em que morávamos antes que ela tivesse tempo de se transformar. Invariavelmente ela já estava na cozinha quando eu chegava, preparando leite com biscoitos para mim. No entanto, em vez de me livrar dessas ilusões, essa proeza só fazia crescer minha admiração pelos poderes dela. Além do mais, era sempre um alívio não surpreendê-la entre uma e outra transformação – muito embora eu jamais deixasse de tentar; eu sabia que meu pai e minha irmã nem faziam ideia da natureza real de minha mãe, e o peso da traição que, imaginava eu, recairia sobre meus ombros se alguma vez a pegasse desprevenida seria demais para mim, aos cinco ano de idade.”

Assim começa o Complexo de Portnoy de 1969, terceiro livro de Philip Roth.
Monólogo de um judeu de trinta e tal anos no consultótrio do psicanalista, é um livro dotado de uma profusa ironia, envolta numa linguagem desbragada e escatológica, que nos leva amiúde ao riso (fácil!).
Roth, que tem a sua obra fortemente alicerçada nas suas memórias autobiográficas (como de resto explicitou em "The Facts - a novelist autobiography" de 1988), transporta-nos aqui para um universo neurótico, que remete para o de Woody Allen - a auto-ironia, as obsessões sexuais, a culpa omnipresente da moral judaica, o ambiente novaiorquino (em Roth, o espaço geográfico de Newark-New Jersey, da sua infância, é o cenário priveligiado da sua obra!).

 De Roth já tinha lido "Conspiração contra a América" (2004), livro que me encantou pela forma notável como desenvolve uma ficção histórica improvável e pela maestria da escrita.
Neste "Portnoy´s Complaint", 35 anos mais antigo, venho encontrar muita coisa em comum - o contexto geográfico e sociológico da história, as suas obsessões pela origem judaica, a observação do Mundo através duns olhos infanto-adolescentes.

Tive oportunidade na minha juventude, de viver algumas semanas na casa de uma família judia novaiorquina. Nunca pensei que o peso da história e da tradição pudessem marcar tanto alguém, como percebi ser o caso dos judeus. Não houve serão que não tivesse uma preleção sobre costumes ou a história sionista, visita que não fosse condicionada por essa perspetiva religiosa, mesmo tratando-se duma família pouco praticante, em que os filhos jovens não frequentavam a sinagoga e a esposa se recusava a viver confinada aos clubes sociais da comunidade judia.
Desde aí percebi melhor o forte condicionamento mental, a doentia noção de dever e pecado, que marca este povo.
Portnoy que recusa a religião que lhe saiu no berço, não conseguiu contudo escapar a um fortíssimo complexo de Édipo que lhe saiu no leite - e não esqueçamos que foi outro eloquente judeu, que descreveu cerca de 70 anos antes, este quadro pela primeira vez, embora com menos graça!

Este é o livro do mês do Clube de Leitura, estando este espaço aberto, através dos comentários, às observações que queiram aportar à discussão.
 Boa leitura! ( AQUI, pode fazer o download gratuito do livro!)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

As Vinhas da Ira



Alguém disse, que cada pessoa é ela própria mais as suas circunstâncias!
Este livro, uma saga épica de uma família e dum povo, não podia ser mais demonstrativo desta asserção.
Uma família rural, conservadora, da América profunda, submetida à dura prova da perda da terra, com a sobrevivência em risco, vai, conforme migra para oeste, modificando o seu modo de pensar, a sua dinâmica interna de poder, a sua forma de estar na vida.
Mantendo-se fiel aos seus princípios, radicaliza as suas posições, porque assim lhe ditaram as circunstâncias.
Escrito na perspetiva dos desamparados, faz-nos entrar na sua pele (no que somos ajudados pelo contexto social atual!) e ver o mundo na "perspetiva bolchevista"! Sentimo-nos acossados, "oackies" e respeitamos a sua dignidade intacta, face à sua desesperada situação.
Imaginamos que se fossemos um Californiano "invadido", pensaríamos de forma diversa, atemorizados pela concorrência desleal de quem não tem nada a perder, quiçá roçássemos o chauvinismo, como somos tentados face aos romenos que nos perturbam, porque são sujos, ladrões, capazes de tudo!

As personagens revelam uma pujança quase indestrutível, fortemente ancorada numa coesão familiar que mantêm apesar de todos os malogros que se vão sucedendo. A figura matriarcal, uma verdadeira mãe coragem brechtiana, assume os comandos do destino colectivo, percebendo ser a figura charneira da família.
A escrita tem um tom descritivo detalhado, realista, que nos convoca para a história e nos vai envolvendo irreversivelmente no destino dos Joad. Alternando com os capítulos em que é explanada a história, surgem "intermezos reflexivos", que teorizam ou contextualizam a ação que vai decorrendo.
Há verdadeiras jóias como o capítulo que descreve o negócio do comércio de viaturas usadas e que estou em crer ajudou a criar o arquétipo do "vendedor de automóveis"; ou o diálogo da mãe com o empregado do armazém da quinta onde colhem algodão, em que a sua frontalidade e simplicidade, desmonta desconcertantemente o cinismo verruminoso do lojista.

Os curiosos pela mecânica automóvel, têm neste romance, em que um velho camião é uma das personagens centrais, motivos de júbilo suplementares.
A narrativa é também uma road story ao longo da mítica 66, muito antes de Kerouac lá voltar - em vez dos móteis temos aqui as bermas e os acampamentos clandestinos, o psicadelismo é aqui substituído pela fome e o medo, as trips desta história são o sentimento de injustiça e revolta que vai fermentando.

Depois de ter criado uma intensidade dramática fortíssima, Steinbeck termina o livro com um episódio que foi à época mal aceite e que continuo a achar desnecessário e excessivo, mas que consegue pela sua intensidade rematar a história, deixando contudo em suspenso o destino dos Joad.
Nesta epopeia, um ácido cepticismo sobre a natureza humana, co-habita com a esperança no futuro, pela nossa capacidade, quase sem limites, de sobreviver, nos contextos mais adversos.

O Mundo continua igual quase cem anos depois e embora a envolvência histórica em que decorre a acção nos permita contornar a  angústia, torna-se óbvia uma coisa tão simples, mas tão esquecida como esta: aquilo que nos parece adquirido e irreversível, rapidamente desaparece se assim for ditado pelas circunstâncias.
Esperemos que não venhamos nunca a ter as nossas hoovervilles (cavacovilles, socratovilles, sei lá!).

domingo, 16 de janeiro de 2011

Retrato da Grande Depressão







O autor do mês do Clube de Leitura é  John Steinbeck (1902-1968).

"As Vinhas da Ira" (1939), que no ano seguinte à sua publicação receberia o Prémio Pulitzer e seria levado ao cinema por John Ford (óscar de melhor realizador, com Henry Fonda, Jane Darwell e John Carradine), é consensualmente considerado um dos seus mais importantes livros e foi o livro escolhido para este mês, pelos participantes no clube de leitura.
Tendo por pano de fundo a América dos anos 30, relata a saga dos Joad, uma família rural de Oklahoma, obrigada a migrar para Oeste pela seca e a industrialização da agricultura.
Livro muito oportuno nos tempos que correm, já que os tempos que se avizinham, poderão ter económica e socialmente muito em comum com os da Grande Depressão Americana, que precederam a segunda grande guerra.

De Steinbeck, li na minha juventude "A um Deus Desconhecido", seu segundo romance, que me marcou profundamente, sendo o seu carvalho "totémico", uma das inspirações a que frequentemente retorno.

Nas muitas listas de livros mais importantes (de sempre, do século), que têm sido publicadas e para as quais deixo links a seguir, esta obra maior da literatura americana, que esteve na origem da atribuição do Nobel em 1962, é uma presença assídua.


110 melhores livros — A Biblioteca Perfeita do "The Telegraph"

100 melhores livros do "The Guardian”

 Clube de Leitura da Oprah

Lista dos livros mais vendidos de sempre da Wikipédia

100 melhores romances do século XX do Radcliffe Publishing Coorte

100 melhores romances da Modern Library 

Lista da "Newsweek” das suas 50 escolhas atuais.


100 melhores romances em língua inglesa desde 1923 da "Time"

Livros do século da New York Public Library

Lista de leitura do St. John's College


Os 100 livros do século do "Le Monde"



"Pela grossura da camada de pó que cobre a lombada dos livros de uma biblioteca pública pode medir-se a cultura de um povo."  John Steinbeck.

Continuemos pois a retirar pó das estantes!
Boa leitura!

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Razão e Ordem versus Irracionalidade e Tirania?





Acabo de ler "O Deus das Moscas", obra que não me encantou pelo seu valor "literário", mas que me entusiasmou por no seu aparente estilo de aventura juvenil, forçar uma salutar e profunda reflexão sobre questões pedagógicas, sociais e éticas. Trata-se de um livro-tese, descaradamente maniqueísta, de resto como toda a literatura, pois a objectividade é sempre a que é permitida pela perspectiva de quem escreve. 

E que pontos William Golding pretende fazer valer:
1 - A vida em sociedade implica um conjunto de regras e o seu respeito.
2 - A estrutura social implica uma liderança (natural ou imposta) e uma hierarquia.
3 - O poder tende a ser disputado balanceando a escolha entre a força da razão (a democracia, o primado da política) e a razão da força (a ditadura, o primado do autoritarismo).
4- Em situações de crise, o domínio é favorável a quem garantir a satisfação das necessidades básicas e imediatas, mesmo que a autoridade e a ordem se assegurem pela tirania e violência!
5 - A sustentação duma ditadura, assenta na exploração de uma ameaça ao grupo (aqui, "a fera", mesmo que inexistente, é pressentida como real e convoca todos os medos!).
6 - As ritualizações grupais encantatórias ( aqui a "dança da caçada") permitem submergir o discernimento individual, levando o grupo a comportamentos "incontroláveis", que seriam impensáveis num contexto de livre arbítrio.
7- A consolidação do poder despótico beneficia da culpa colectiva sublimada (a morte de Simão) e da diabolização do "outro" (os exteriores à comunidade).

Uma sociedade civilizada implica a subordinação das suas estruturas "instrumentais" (exército, finanças, diplomacia) a uma liderança baseada no interesse colectivo e bom senso (o que deveria ser a política!).
Quando se perde essa força aglutinadora e condutora, o risco de barbárie é real!
A razão pode pouco contra a força de uma massa alienada e euforizada!

Há na personagem de Rafael uma incredulidade sobre o pulsar destrutivo do grupo ( "Não. Não são tão maus como isso. Foi um desastre.") e um sentido de responsabilidade, que se lhe impõe como um imperativo ético e uma evidência ( "A fogueira é a coisa mais importante. Sem a fogueira não nos poderemos salvar. Eu também gostaria de me pintar como um guerreiro e brincar aos selvagens. Mas é necessário manter a fogueira acesa. A fogueira é a coisa mais importante na ilha"), que o impedem de se conformar com o delírio colectivo.

 Essa maldição também eu a sinto desde a sua idade e é ela que não me permite, hoje, viver despreocupado como a maioria dos meus concidadãos, que ainda agora correram aos stands de automóveis a apropriarem-se de um, antes que o país feche!

(Como terá vivido Rafael quando voltou à sua vida "normal"?
Depois da perda da sua "inocência original" nunca mais o Mundo voltou a poder ser visto pelas lentes da fantasia e do optimismo?)

Mesmo um "pessimista" como Golding não exclui a possibilidade de um milagre no último minuto - seria  também essa a minha esperança, caso a nossa vida colectiva fosse o argumento de um autor benevolente!

 Pode ser que Deus exista!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Salman, filho da Meia Noite!

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Personagem polémico, exibicionista, sexualmente obsessivo, religiosamente traumatizado, Salman Rushdie, tem em Os Filhos da Meia Noite uma obra à sua altura, em que parece ter querido despejar exaustivamente a sua visão do mundo.
Seu segundo livro, publicado em 1981, numa altura em que ainda não se dedicava exclusivamente à literatura, continua quase unanimemente a ser considerado o seu melhor livro!

A história na realidade é a da Independência do Industão, entrelaçada numa saga familiar, que se inicia em Caxemira com o avô da personagem central - Saleem Sinai e é narrada num registo que se pretende próximo da oralidade desorganizada (mas muito trabalhada), à sua futura mulher, cuidadora, salvadora, Padma, aliás a Deusa da Bosta.
Saleem terá muito de Salman - ambos nasceram em 1947, ano da Independência da Índia e Paquistão, oriundos de famílias Caxemires, passaram a infância em Bombaim, viram as respetivas famílias migrar para o Paquistão em 1964.
E além disso há a aparência física - Saleem, o Muco na Penca, o Sorve Ranho, o Cara de Mapa, o Pedaço de Lua, também Buda, o cão pisteiro, partilha com o autor um nariz proeminente, uma tonsura capilar precoce, umas pálpebras que não fecham e outras particularidades que não podem ser desvalorizadas ("cresci com as pernas irremediavelmente tortas, porque me pus de pé cedo de mais" (..) com "um ano, duas semanas e um dia" -  idade afinal normal para qualquer criança andar!?.)
E a futura mulher, que pacientemente escuta a sua febril narração, será afinal a Padma Lakshmi, sua quarta mulher desposada em 2004 (foto), de origem indiana e apresentadora dum reality show americano ("Top Chef")?

O ritmo da escrita é alucinante, com permanentes histórias laterais, apartes, devaneios. O estilo é feérico, excessivo, caleidescópico, diria mesmo ruminante, com a história a ser sucessivamente regurgitada e mastigada, sendo nisso fielmente indiano, país dos excessos - de cor, de desgraça, de cheiros, de imaginação.
Nenhum país incorpora tantas religiões e um panteão tão povoado e improvável. Deuses que têm mil representações, shivas de inúmeros membros e divindades de cabeça de elefante.
Saleem Sinai tem um filho, no preciso momento em que era declarado o estado de sítio e suspensa a democracia pela Viúva - Indira Gandhi (25 de Julho de 1972).   Filho que afinal não era seu, mas era neto dos seus pais e tinha orelhas de elefante - tal como Ganesh, com quem tinha em comum ser filho de um Shiva e de uma Pavarti.

Um país de imaginário ancestralmente pop e que continua a gerar gurus que atraem ciclicamente vedetas ocidentais (como um dos filhos do livro, Cirus transmutado em Khusro, que era "visitado por guitarristas americanos, que se sentavam aos seus pés e nenhum se tinha esquecido do livro de cheques"). Sendo uma narrativa comentada da Índia, o leitor que não for um bom conhecedor da sua história perde muitas das ironias, referências, interpretações (houve mesmo um primeiro ministro que bebia a sua urina? Os lideres comunistas retratados são reais ou delirados? a resolução da crise do Paquistão Oriental/Bangladesh, fez-se com festejos?).
Perpassa em todo o livro uma muito salutar capacidade de gozar consigo próprio e com o seu país ( "cada indiano tem uma versão da Índia! ).

Este livro tem demasiadas coisas lá dentro, muito excesso e muitas preciosidades!
Como todos os grandes livros é atual e aplica-se-nos - " No dia em que ao mesmo tempo, subiram os impostos e baixaram as isenções! É como quem vai à retrete - camisa para cima e calças para baixo! Este governo trata-nos como a uma retrete!" Aliás há mais referências a Portugal - uma Carmen Verandah de chapéu de frutas que não poderá ser outra que a nossa, do Marco, Carmen Miranda! - a inevitável Catarina de Bragança, que em 1660 levou de dote para Carlos II de Inglaterra, nada menos que Bombaim ( que derivará do português Bom Bahia )!
Das incontáveis histórias dentro da narrativa, retenho a do Fórum Radiofónico dos 581 garotos filhos da meia noite, que ocorre telepaticamente promovida pelos dons mediúnicos de Saleem na e que é uma antevisão profética e poética do Face Book.

Sendo necessário um ritmo de leitura pujante, para não nos atolarmos nas permanentes manobras de diversão, lê-se este delírio de uma personagem paranóica que interpreta o percurso histórico da Índia como decorrente da sua história pessoal, como se a História acontecesse toda em sua função, com o objetivo último de o tramar a si e aos 1001 filhos dessa meia noite de 15 de Agosto de 1947, em que a Índia se tornou um Estado Independente.

Estabelecendo uma conexão com um livro aqui comentado recentemente (A tia Júlia e o Escrevedor), este parece um fenomenal folhetim de Pedro Camacho, cujo sucesso tão apoteótico terá seguramente muito a ver com a importância social, económica e cultural da comunidade hindu no mundo anglosaxónico e com o tom de refinada auto-ironia, que preveniu a rejeição dos antigos colonos.

domingo, 19 de dezembro de 2010

O Deus das Moscas

William Golding foi Nobel da Literatura em 1983
"William Golding (1911-1993), um dos maiores escritores do século, ganhou o prémio Nobel em 1983 e este é um dos seus grandes livros, duas vezes adaptado ao cinema. Nesta obra Golding conta a história de um grupo de crianças de um colégio inglês que naufraga, dando à costa numa ilha deserta. Contra este pano de fundo mais ou menos idílico, a lembrar obras como "Dois Anos de Férias" de Júlio Verne, Golding vai conduzindo o leitor pelo verdadeiro tema da obra: a maldade e a estupidez humana, a selvajaria brutal que tudo subjuga ao prazer imediato. Quando foi publicado, em 1954, o mundo ocidental acabava de sair dos horrores da segunda guerra mundial; mas hoje a obra continua infelizmente actual porque a estupidez humana é uma das constantes que ao que parece veio infelizmente para ficar.
Do ponto de vista formal, estamos perante uma escrita depurada que parece esconder na sua impassível objectividade narrativa um grito surdo que passa a habitar-nos para sempre. Se há romance contagiante, é este. A sensatez do herói do romance, que procura convencer os seus companheiros a não se deixarem iludir pelos apelos constantes à brutal selvajaria é quase dolorosa. Estamos perante um grande livro, que merece ser lido e discutido e do qual é imperativo extrair uma lição.
Gostava de destacar um aspecto crucial. Na sua tentativa de convencer os seus companheiros a agir de forma sensata e racional, o protagonista vê-se obrigado a instituir rituais — menosprezados e espezinhados por todos. E este é um aspecto que parece captar uma característica importante da natureza humana e que muitas vezes não é suficientemente tida em conta — nomeadamente em discussões relacionadas com a filosofia da religião. Os seres humanos precisam de rituais, de símbolos, de histórias para conseguirem ser sensatos; precisam da iconografia, do gesto ritual, do preceito religioso; e precisam, sobretudo de dramatizar o bem e o mal morais. Essa dramatização culmina, claro, com a invenção dos deuses das várias religiões, guardiães dramáticos da acção moralmente correcta.
Termino com uma nota de cautela. Este livro não é para espíritos fracos. O seu desenlace trágico, pinta em tons fortes os abismos morais a que a miséria humana pode conduzir. Mas, como grande escritor que é, Golding faz mais do que impressionar o nosso sentido moral: impressiona o nosso sentido estético com um poder tal que o convívio diário com esta obra nos marca para sempre. "
Desidério Murcho

"Comecei a desconfiar de Rousseau quando li O Deus das Moscas. De súbito, a questão impôs-se: “Será mesmo o Homem naturalmente bom?”.
“O Deus das Moscas” foi, ao que parece, uma resposta de William Golding ao livro “A Ilha de Coral” escrito por Ballantyne, onde três rapazes britânicos, Jack, Ralph e Peterkin encontram-se numa ilha e, ao contrário do que acontece em “O Deus das Moscas”, conseguem, de forma heróica, ultrapassar todos os problemas que vão surgindo. William Golding oferece-nos a versão alternativa, descrente da bondade entre os seres humanos.

Deixo ficar uma série de notas, colhidas aqui e ali, sobre o próximo livro do Clube de Leitura (que tem uma versão virtual e outra real!), para entusiasmar os disponíveis!

Boa leitura!