ESTOU PERDIDO, DEVO PARAR? NÃO SE PÁRAS ESTÁS PERDIDO! Goethe

- ESTOU PERDIDO, DEVO PARAR? - NÃO, SE PÁRAS, ESTÁS PERDIDO! Goethe



Mostrar mensagens com a etiqueta Memórias de Viagem. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Memórias de Viagem. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 22 de junho de 2011

No Caminho!

Este blogue encontra-se em trânsito pedestre pelo Caminho Francês até Santiago, com um estreante de 11 anos!
Bom caminho!

terça-feira, 3 de maio de 2011

Cinque Terre





A partir de La Spezia, na Ligúria, apanha-se um comboio regional que dá acesso a estas cinco vilas - Riomaggiore a primeira - que se podem percorrer a pé, em fantásticos trilhos sobre o Mediterrâneo.
O trajecto mais fácil, junto à água, tem cerca de 15 kms e estava fechado para manutenção, apenas se podendo percorrer o Km inicial até Manarola - Via dell`Amore, um pesadelo de turistas e grupos, apesar da beleza do entorno.
Daí para a frente e como não restavam alternativas, percorreram-se os trilhos interiores que sobem em veredas alucinantes entre oliveiras centenárias e vinhedos, desafiando as vertigens e o equilíbrio, percorrendo aldeias perdidas, dum povo que continua a cultivar em locais que se diriam impossíveis e mantendo uma paisagem viva num local deslumbrante e que é Património da Humanidade.
Aí, a frequência dos trilhos, apesar de numerosa, já era mais interessante e chegado a Corniglia depois de uns 10 Kms de subidas e descidas inesquecíveis, aquela pizza singela de molho fresco de tomate com azeite e cogumelos da região, soube-me à melhor de sempre!
O comboio que circula regularmente permite em minutos atingir a próxima terra, no caso Vernazza, onde um sol mediterrânico de Primavera pujante, apelou aos meus instintos reptilíneos, deixando-me a giboiar sobre uma laje junto ao mar.
Para se passar um dia agradável (vindo de Pisa é cerca de uma hora de comboio)  e constituindo uma alternativa ao "turismo de monumentos", As Cinque Terre, são uma boa opção. Para uns dias de caminhadas e natureza, também se devem recomendar, tanto mais que à noite com a debandada da turistada, os locais devem ganhar uma beleza suplementar.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Os meus veículos (2) - Bicicleta

Bicicleta Classica Orbita - Tipo Pasteleira em

A minha primeira bicicleta, que me foi oferecida após a quarta classe (juntamente com um relógio Cauny quadrado), foi talvez  o objeto mais cobiçado e utilizado da minha vida.
Para terem uma noção, por aquela altura uma bicicleta era um veículo que preenchia quase obrigatoriamente os seguintes requisitos: era preta, tinha guarda lamas metálicos à frente e atrás, descanso, porta bagagens atrás, com um sistema de molas, guarda corrente, sistema de iluminação com dínamo à roda da frente, campaínha e bomba de encher, que se alojava em duas cavilhas do quadro.
A minha bicicleta não tinha qualquer tipo de mudanças - pedaleira única e pinhão fixo (também eram frequentes as mudanças (3) de tambor e pinhão único, mais para a gente crescida). Mudanças com pinhões múltiplos só nas chamadas bicicletas de corrida, de pneu fino e que não estavam acessíveis à rapaziada comum, nem nós as queríamos para nada.

Passei muitos Verões na companhia da minha adorada bicicleta.
O primeiro objetivo após as semanas iniciais de limpeza e lubrificação diária, era começar a aligeirar o veículo de todas as peças que considerávamos inúteis e pesadas, até atingirmos o estado da bicicleta da Audry Hepburn, que depois de muito googlar foi o veículo que encontrei mais parecido com essa minha bicicleta de sonho.
Aqui a dificuldade consistia em vencer a resistência dos nossos pais às transformações, pois achavam sempre que estávamos a desfazer o velocípede. Geralmente começava-se pelos guardas lamas, com a desculpa de empenos, que já não se conseguiam corrigir, depois o descanso com a mola abalada, os faróis porque já tinham os fios traçados, até atingirmos a ligeireza pretendida : duas rodas, um quadro, um selim e um volante, os travões, reduzidos idealmente ao da retaguarda.

Muito tempo antes de vir  a moda das mountain bike e das bmx, tivemos isso tudo - organizámos provas de resistência de 12 horas com teams de dois condutores em circuitos de terra de 3 ou 4 kms, provas de descida cronometradas, sempre com alguns feridos no saldo final ( isto muito antes de sabermos dizer down hill), jogos de futebol de bicicleta no campo pelado da aldeia, excursões noturnas e diurnas.
Sabíamos desmontar uma bicicleta, consertar furos, substituir cabos e contávamos com a paciência do garageiro - o tio Júlio, para nos resolver os problemas mais complexos.
Lembro-me de numas férias grandes, aí pelos 15 anos, termos conseguido (éramos quatro) autorização para uma expedição minhota - quatro dias de bicicleta e mochila às costas: Vila do Conde - Viana - Ponte de Lima - Arcos - Braga - Barcelos - Vila do Conde. Para nós foi o equivalente a uma travessia do Sahara!

Por essa altura as bicicletas tinham matrícula municipal (amarela, e que nós também arranjávamos maneira de fazer desaparecer!) e livrete. O aloquete era um acessório desnecessário!

Aí pelos 16 anos resolvi pintá-la de amarelo, inspirado num movimento holandês que "confiscava" as bicicletas, pintava-as de amarelo para as descaracterizar e ficarem de utilização coletiva. Sei lá se por isso algum tempo mais tarde foi roubada ao meu irmão, deixando um vazio que nem a minha atual Scott, cheia de suspensões, truques e triques, veio preencher.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Cuy




 







O Sr. Federico Téllez Unzategui, "estava na flor da idade, nos cinquenta e os seus sinais particulares - fronte larga, nariz aquilino, olhar penetrante, retidão e bondade de espírito", tinham-lhe permitido atingir o sucesso à frente da firma Anti-Roedores, S.A..  
Embora nada faça crer que conhecesse a Drª Lucía Acémila ("mulher superior e sem complexos, chegada ao que a ciência deu em considerar a idade ideal - os cinquenta - apresentava fronte larga, nariz aquilino, olhar penetrante, retidão e bondade de espírito"), tinha superado os traumas de uma infância difícil, seguindo intuitivamente o método que tanta fama viria a dar a esta facultativa - não havia vantagem em superar as preversões e os complexos, bastava assumi-los e fazer disso uma vantagem.
E assim Federico Téllez Unzategui, com uma vida potencialmente destruída pela culpa associada a um episódio da sua infância (a morte de sua irmã, ainda bebé, comida por uma horda selvática de ratazanas), superou o trauma, que vitimaria socialmente seu pai e sua mãe, tornando-se o mais importante exterminador de roedores de toda a América Latina.
Por isso não espanta que, tendo "uma vez , um engenheiro agrónomo com pretensões de dietista, ousado dizer à sua frente que, dado a falta de gado no Peru, era necessário intensificar a criação de cobaias com vista à alimentação nacional", tenha recordado "ao atrevido que a cobaia era prima/irmã da ratazana".
Mas como este "reincidindo, recitou estatísticas, falou de virtudes nutritivas e da carne saborosa ao paladar", "o senhor Federico passou então a esbofeteá-lo até o dietista rolar pelo chão".

Estava em Lima e como já tinha comido ceviche peruano na véspera (declarado Património Cultural da Nação), prato de peixe e marisco crú num molho fortemente alimado, desafiei a minha guia a surpreender-me com outro extravagante petisco, daquela que é considerada uma das mais originais cozinhas do Mundo.
Prometeu levar-me a um restaurante popular em San Isidro, onde serviam o melhor cuy andino.
O ambiente era animado e enquanto se esperava o prato, foram-se bebendo uns Pisco Sour, cocktail nacional feito a partir de Pisco (aguardente de uva), sumo de limão, clara de ovo e canela. E esta alcoolemia introdutória salvou-me de uma má figura, quando me foi servida uma espécie de ratazana estaladiça, que de resto se veio a revelar deliciosa.
O Cuy era afinal o nosso porquinho da Índia ou cobaia e a que os ingleses chamam Guinea Pig.
Trata-se de um roedor domesticado há mais de 2000 anos pelas populações andinas pré hispânicas e que terá sido introduzido na Europa no sec. XVI pelos Espanhóis, onde foi apreciado como mascote e animal de estimação e nunca pelo seu potencial nutritivo.
Porém no Perú comem-se cerca de 65 milhões de cuys por ano, prática que foi reintroduzida a partir dos anos 60, e da qual o engenheiro agrónomo, personagem do folhetim de Pedro Camacho, terá sido um importante impulsionador.
À Tia Júlia e o Escrevedor  voltaremos mais tarde, mas lembro que já não foi com perplexidade, que alguns dias depois, na Catedral de Cusco, deparei com a ementa desta Última Ceia, da autoria de Marcos Zapata.