ESTOU PERDIDO, DEVO PARAR? NÃO SE PÁRAS ESTÁS PERDIDO! Goethe

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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Prevenir a censura - a crónica da polémica!

“Em directo de Luanda, a RTP serviu nesta segunda-feira aos portugueses e ao mundo – eu vi aqui em Paris – uma emissão a que chamou ‘Reencontro’ e na qual desfilaram, durante duas horas, responsáveis políticos, empresários e comentadores de Portugal  e de Angola, entre alguns palhaços ricos e figuras grotescas do folclore local.
O serviço público de televisão tem estômago para muito, alguns dirão para tudo, mas o Reencontro a que assistimos desta vez foi um dos mais nauseantes e grosseiros exercícios de propaganda e mistificação a que alguma vez assisti. Há até propaganda comestível, quando feita com inteligência, mas nem sequer essa bitola foi conseguida, foi permitida, à emissão. A nossa televisão, a televisão paga por todos e que, de certo modo, é um pouco de cada um de nós, afectiva mas também politicamente,  foi a Luanda socializar com os apparatchik do regime, nos quais deveríamos reencontrar uma Angola irmã, uma Angola feliz, uma Angola nova.
Aconteceu o contrário. Reencontrei nesta emissão a falta de vergonha de uma elite que sabe o poder que tem e o exibe em cada palavra que diz. Não no conteúdo, mas no tom, seguro, simpático, veladamente sobranceiro. Aquela gente –  as divas, os engravatados, os socialites – são. ao mesmo tempo, a couraça e as lantejoulas de uma clique produzida pela história recente de um país que combinou uma guerra de 30 anos e uma riqueza concentrada, basicamente, no petróleo.
Oleocracia, chamou-lhe a socióloga francesa Christine Messiant, falecida faz agora anos, e que identificou como ninguém a natureza do poder de José Eduardo dos Santos, do MPLA, da Grande Família e das suas clientelas. Em poucas linhas, a clique angolana, em torno do Presidente, privatizou o Estado, numa teia de clientes da ‘economia política’ angolana e num aparelho que controla, por um lado, a segurança e o uso da força, e, por outro, as contas vitais da República, como a do petróleo, dos diamantes, do Banco Nacional e do Tesouro.
Os generais e barões da economia política fizeram ganhos astronómicos nas comissões dos contratos de armamento, do petróleo, da manutenção militar, por aí fora, e depois usaram esses recursos  em todos os negócios sensíveis, estratrégicos – as empresas de segurança, as companhias de aviação, os sectores das empresas públicas colocados em leasing, as companhias ligadas às forças armadas e à polícia. Um lucro incalculável e, o melhor, legal!
Como bem explicou Christine Messiant, o controlo da economia pelo topo do poder político (juntando as altas patentes e o politburo informal do Partido) usou e geriu a concorrência internacional, beneficiando a conivência, a colaboração ou a assistência de grupos estrangeiros na banca, no sector energético.
É esta, resumindo, a face verdadeira da nova Angola: o novo poder económico é apenas a nova máscara do velho poder político. Uma maquilhagem sofisticada mas óbvia, o bâton da ditadura, parafraseando o grande jornalista Rafael Marques.
Num reencontro digno para ambos os povos e ambas as audiências, teria havido por exemplo Rafael Marques, ou alguém que chamasse à corrupção, corrupçlão, e não, quase a medo, numa única pergunta, ‘um certo tipo de corrupção’, como fez Fátima Campos Ferreira.
Quem se encontra com a realidade de Angola, encontra a violência brutal nas Lundas diamantíferas, os despojos da guerra civil no tecido social e produtivo, a conflitualidade social latente entre quem tem o mundo e quem não é sequer dono da sua vida, ou a pobreza dos musseques de Luanda, que não desaparecem com o cair do cetim vermelho de um banco como na publicidade que embrulhou a emissão da RTP. Já agora, gostaria de ter reencontrado outros portugueses: os milhares que vão para Angola em fuga de um país sem esperança, o nosso, como se ia nos anos 50, e, como então, enfiados como semi-escravos e semi-reféns à mercê dos seus patrões – agora angolanos – num estaleiro, numa pedreira ou numa fazenda algures fora do alcance das visitas oficiais que chegam a Luanda.
Nesta emissão, enfim, Portugal confirmou que, como antes os nossos colonos, apenas temos a subserviência quando a situação não nos permite o abuso. É no que estamos. ‘Qual o objectivo do investimento angolano no estrangeiro?’, perguntava a jornalista. A resposta foi dada pela própria emissão: respeitabilidade. Luanda apenas compra aquilo que sabe que não tem.”
Pedro Rosa Mendes

domingo, 27 de março de 2011

MILITANTES



Nas directas do PS em que José Sócrates saiu escolhido, por preocupante unanimidade, para secretário geral - isto é candidato a primeiro ministro - o universo de votantes (isto é, de militantes partidários) era de 32000.
No caso do PSD, falou-se no ano passado, aquando das suas directas, num universo de 78000 militantes, embora nunca tenha sido esclarecido se todos teriam direito a voto, isto é, as quotas em dia.

O que me interessa aqui interrogar, é se existe democracia num sistema político, em que na realidade são uns escassos milhares de indivíduos, que decidem quem virá a ser, em futuras eleições o primeiro ministro do país.

Os cidadãos eleitores, têm depois uma opção real, entre duas figuras pré-determinadas.

Não sendo eu politólogo, parece-me que algo está errado e perverso neste sistema!
O modelo americano das primárias partidárias, que parece estar na origem do nosso, ocorre num contexto sócio-político completamente diverso - a eleição do candidato de cada partido tem uma participação pública intensa, não só na discussão de ideias e projectos, como na participação numérica dos eleitores.

Isto são assuntos vitais a ser discutidos, se queremos que a democracia perdure!

terça-feira, 22 de março de 2011

RACIONALIDADE




Será possível um colectivo alargado agir racionalmente?
Isto é, cada um secundarizar o seu interesse particular em prol de uma atitude mais lógica do ponto de vista do grupo e por consequência também mais benéfica para todos!
Ou seremos incapazes de ir para além da lógica democrática - que neste caso contabiliza a soma das objecções individuais, como uma força de bloqueio ao interesse geral!

Almejo uma sociedade em que a racionalidade e o desprendimento individual fosse a orientadora das decisões - mas tenho plena consciência que nunca viverei em tal circunstância.

Para não falarmos sempre da crise que nos assola, tentemos um exemplo mais distante.

Após o terramoto de 1755 e face a toda evidência científica entretanto conhecida - de que Lisboa assenta sobre uma importante falha sísmica e que mais decénio, menos decénio, voltará a sofrer uma inevitável catástrofe - faz algum sentido um país continuar a concentrar os seus recursos económicos, demográficos, organizacionais, nesse local?

A mesma lógica que nos impediu de antecipar e evitar o actual desastre económico (que era previsto pelos economistas e políticos sérios há décadas), leva-nos  a nem equacionar a questão anterior como razoável!
E contudo, um dia a capital voltará a ir abaixo!

Outras coisas que se aprendem com a experiência são, que nem vale a pena ficar perturbado por se ver mais longe que os outros, nem se ganha reconhecimento por se ter razão antes do tempo.

O inconsciente colectivo é em regra irracional, e mesmo quando a questão da sobrevivência se coloca, é pela soma dos medos individuais que surgem alguns comportamentos redentores.
Só que o medo nunca foi bom conselheiro ...

quinta-feira, 3 de março de 2011

Experimentalismo Social

Professor John List

Já me interroguei muitas vezes se algumas práticas sociais tidas como adequadas e incontestáveis, não poderiam eventualmente resultar de avaliações preconceituosas, de interesses de grupos profissionais ou da simples inércia das ideias feitas.

Tomemos por exemplo uma criança com dificuldades de aprendizagem. Consensualmente se considera que se deve investigar exaustivamente a origem do problema (testes genéticos, metabólicos, sofistificados exames de imagem, avaliações cognitivas, etc, etc.), promover os apoios possíveis (professores de ensino especial, terapeutas várias, estimulação precoce, etc., etc), exigir das famílias disponibilidade permanente para frequentar hospitais, centros de apoio, associações de doentes, etc,etc.
Frequentemente deparámo-nos com contextos familiares carenciados tanto económica, como culturalmente e muitas vezes me interrogo, se uma percentagem diminuta dos recursos alocados anualmente àquela criança (dezenas de milhares de euros, com facilidade!), fosse canalizada para apoiar genericamente a família, se daí não resultaria um benefício concreto superior, para  a criança!
Só o esboço desta hipótese me expõe perigosamente aos sacerdotes do politicamente correcto e/ou a uma cada vez maior horda corporativa dependente das "políticas sociais", mas tal circunstância não nos deve impedir de pôr em causa as ideias feitas, visando sempre utilizar da forma mais racional os recursos existentes, com o melhor proveito para os seus destinatários.

 John List, um professor de economia da Universidade de Chicago, conseguiu reunir um fundo de 10 milhões de dólares, para conduzir uma experiência ( A Experiência Griffins) que envolve 600 crianças de áreas carenciadas, testando a maneira mais eficaz de apoiar o seu desenvolvimento e educação.
Embora a experimentação científica seja uma prática habitual, por exemplo, na área médica, nas políticas sociais é pouco comum desenharem-se estudos de larga escala, com metodologia científica, testando várias hipóteses de intervenção.
List dividiu as 600 crianças (entre 3 e 5 anos) em três grupos - o primeiro terá acesso gratuito a ensino qualificado, no segundo os pais ou responsáveis receberão formação de parentalidade e um subsídio anual de 7000 dólares (equivalente aos recursos aplicados no primeiro grupo) e um terceiro não terá qualquer tipo de incentivo.
O estudo monitorizado pela Universidade de Chicago e de Harvard, deverá seguir por toda a vida os selecionados, avaliando o seu aproveitamento escolar, taxas de abandono, qualificações académicas atingidas e mais tarde na vida adulta as carreiras profissionais, níveis de rendimento, registos criminais, etc.
A ideia de List, de 41 anos e no topo duma lista internacional dos mais importantes e influentes economistas com menos de 15 anos de actividade,  é que o Estado põe "demasiados ovos no cesto das crianças", esquecendo os pais.
Os primeiros resultados estarão disponíveis já este ano, mas trata-se de uma experiência com objetivos de longo prazo.

Esta experiência, quer pela sua magnitude, como pelo facto de assentar em pressupostos económicos e não pedagógicos, está certamente no centro de uma grande polémica - mas tem a virtude que é suposto a ciência ter: pôr em causa as ideias feitas, testar hipóteses, mesmo as que possam parecer mais disparatadas!
De resto experiências deste tipo, em larga escala e com orçamentos exponencialmente superiores, é o que tem sido a política de educação em Portugal nos últimos decénios, sem que aparentemente se chegue a qualquer conclusão consensual e satisfatória.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Crianças Difíceis



Todos nós já conhecemos "Crianças Difíceis"!
Normalmente os pais alardeiam a sua incomodidade à família, aos amigos, aos colegas, aos vizinhos, ou porque desde que o bébé nasceu nunca mais conseguiram dormir, ou porque as horas das refeições passaram a ser um pesadelo, seja por ser impossível a vida social por terem um filho estranho, normalmente "hiperactivo", birrento, insuportável!
Crianças diagnosticadas mais tarde, na idade escolar, como tendo perturbações do afeto ou síndromes de deficite de atenção/hiperatividade, sofreram na primeira infância (até aos três anos) de uma disfunção hoje conhecida como Perturbação Regulatória.
Ter birras faz parte dum desenvolvimento psico-afetivo normal e a sua ausência deve mesmo ser encarada com alguma preocupação.
Porém comportamentos birrentos desproporcionados e aparentemente incompreensíveis, perturbações do sono ou do hábito alimentar, estão na origem frequente dum mal estar entre a criança e os progenitores, que normalmente ainda avolumam mais a disfunção e a incompreensão mútua.

As perturbações regulatórias são alterações do processamento sensorial, que se identificadas permitem muitas vezes resolver o problema, " mudando as circunstâncias " (este conceito anda-me a soar bem, desde o post do Ortega e Gasset) e impedir a cronificação da disfunção.
Tomemos os cinco sentidos clássicos e acrescentemos-lhes mais alguns - a propriocetividade (digamos a noção de postura corporal) e a sensação gravítica.
Imaginemos um bébé com limiares de tolerância perturbados a algumas latitudes dos seus sentidos - para quem um som agudo soe insuportável, ou uma determinada banda luminosa, ou a sensação de queda eminente, sejam percepcionados como intoleráveis.
Consiguemos entrar na sua pele - e esse é o segredo para se diagnosticarem estas situações, amar a criança, ter compaixão pelo seu sofrimento, ter tempo e imaginação para o interpretar.
As pessoas próximas, os pais, os cuidadores estão em posição priveligiada para esta tarefa, muito mais que qualquer médico ou terapeuta.
(O problema está em que muitas vezes os pais, são ou tornaram-se parte do problema!).

E agora torna-se fácil perceber porque é que o joãozinho rejubila quando é bombardeado com estímulos sonoros e cócegas e já o rodriguinho berra desalmado quando a vendedora do mercado lhe grita "Ai meu rico menino"!
Porque há bébés que gostam de ambientes luminosos e outros ficam confortáveis na penumbra! E estas perturbações podem ir aparentemente ao detalhe de uma determinada côr (será por isso que as côres das meninas são tradicionalmente diferentes das dos rapazes?).
Porque há uns que adoram ser atirados ao ar pelo avô e outros desatam num choro compulsivo!
Há casos clínicos descritos de crianças que perdem o control na presença de certos cheiros, que serenam com outros, que tem aversão a certas sensações tacteis e por aí fora.

O segredo para estas "perturbações", que são mais ideossincrasias, é tratar cada criança na sua individualidade, não ter receitas universais, modelos pedagógicos e comportamentais definitivos.

 Isto não é muito mais que o bom senso, mas implica coisas que rareiam muito nos tempos que correm - tempo e disponibilidade, humildade e autoconfiança.
E sobretudo amor ...