Agora que me pus a ler o D. Quixote, descubro todos os dias nos jornais, nos blogues, que é um autor da moda ... com 400 anos de tarimba, o que é uma garantia incontornável!
D. Quixote é alguém que conheceu primeiro o mundo pelos livros, ao contrário de Caeiro que enaltece "a espantosa realidade das coisas", e que ao tomar contacto com a realidade quer à viva força que ela corresponda ás fantasias que desenvolveu nas suas leituras alucinadas.
Vai daí, aqueles que lhe estavam próximos terem entendido que destruir a sua biblioteca era um acto de caridade!
Também desconfio daqueles que conhecem o Mundo dos livros (embora creia que estes são um património único, apesar da sua maioria ser dispensável).
A experiência vivida, se possível sem constrangimentos morais, ideológicos ou quaisquer outros preconceitos, é o nosso maior património e aquilo que de mais útil temos para dar aos outros.
Na vida económica, cultural, na política, assustam-me os teóricos, os que aprenderam tudo nos livros, nas universidades, os que conceptualizam a realidade!
Ninguém, a não ser por acaso, tomará boas decisões sobre matérias sobre as quais não desenvolveu uma teoria pessoal, fruto de muitas leituras, opiniões alheias, mas sobretudo duma vivência rica numa determinada área.
Temo os sabichões, cheios de certezas!
A sabedoria é uma atitude tolerante, disponível para aprender e mudar!
ESTOU PERDIDO, DEVO PARAR? NÃO SE PÁRAS ESTÁS PERDIDO! Goethe
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sábado, 20 de agosto de 2011
O meu poeta
Alberto Caeiro
A espantosa realidade das coisas
A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.
Tenho escrito bastantes poemas.
Hei-de escrever muitos mais, naturalmente.
Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto.
Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada,
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.
Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem esforço,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos,
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.
Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer coisa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.
Tenho escrito bastantes poemas.
Hei-de escrever muitos mais, naturalmente.
Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto.
Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada,
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.
Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem esforço,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos,
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.
Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer coisa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.
7-11-1915
quarta-feira, 20 de julho de 2011
No Coração Desta Terra
1. Hoje, o meu pai trouxe para casa a sua noiva. Atravessaram planícies, toque-toque, numa carreta puxada por um cavalo, com uma pena de avestruz a adejar na cabeça, suja por causa da longa caminhada. Ou talvez tivessem sido puxados por duas mulas de plumas - também era possível. O meu pai vinha de fraque e cartola, a noiva trazia um chapéu de aba larga e um vestido branco apertado na cinta e no pescoço. Não posso contar mais pormenores a não ser que os invente, já que não os vi chegar. Estava no meu quarto, de portadas fechadas, no lusco-fusco esmeralda do fim de tarde, a ler um livro ou, o que seria mais provável, deitada, com uma toalha húmida nos olhos por causa da enxaqueca. eu sou das ficam no quarto a ler, a escrever ou curar a enxaqueca. As colónias estão cheias de raparigas assim, mas nenhuma, acho eu, tão radical quanto eu.
J.M. Coetzee (n.1940), escreve em 1977 "No Coração Desta Terra".
J.M. Coetzee (n.1940), escreve em 1977 "No Coração Desta Terra".
Um discurso obcessivo, prisioneiro da mente alucinada de Magda, uma "menina" colonial a quem a solidão numa quinta agreste da estepe africana, empurrou para a loucura.
Apontado como uma metáfora da situação social, cultural e rácica da África do Sul, o livro fez-me lembrar a estrutura narrativa de "Estorvo", o primeiro livro de Xico Buarque, de que não guardo boa memória.
Apesar do contexto concentracionário do monólogo, comum a ambos os livros, Coetzee revela uma mestria literária que faltou em Buarque.
Livro duro, sobre uma realidade em carne viva, em que o discurso vai vagueando por diferentes alternativas, aparentemente incompatíveis, mas provavelmente complementares - um pai distante ou um pai violador?, uma filha assassina ou uma cuidadora perdida?, uma patroa branca violada ou fantasias virginais doentias?, uma jovem madrasta concorrente ou uma criada violentada? ou tudo isso e mais a inexorável decadência de uma sociedade bipolar, na eminência de um conflito de povos e culturas?!
Escrita seca a condizer com a paisagem e o contexto histórico, no primeiro sucesso de uma carreira literária que passaria pelo Nobel - um autor a revisitar!
Escrita seca a condizer com a paisagem e o contexto histórico, no primeiro sucesso de uma carreira literária que passaria pelo Nobel - um autor a revisitar!
terça-feira, 19 de julho de 2011
Tiro ao Álvaro!


O novo ministro da economia, transportes, energia e trabalho, é para a generalidade dos portugueses um desconhecido.
Depois do episódio inicial - "não me chamem ministro, chamem-me Álvaro", parece ter-se eclipsado da cena pública, mas deixou-me uma ponta de curiosidade em conhecê-lo melhor naquilo que parecia ser um misto de ingenuidade, inexperiência e euforia do poder!
Vai daí, depois de umas visitas ao seu blogue, comprei dois livros da sua autoria, um mais técnico - "O medo do insucesso nacional", outro do domínio do "ensaio filosófico" - "Diário de um Deus Criacionista".
Já vira referenciado esse particular do seu curriculum, por inúmeros comentadores, que seguramente não viram nem leram as obras - as edições são de 3000 exemplares e estão a ser vendidas a peso pelo editor. (É aliás uma tendência pós-moderna preocupante, de que o que conta é o ter publicado - tantos artigos, tantos livros, e não a natureza do que lá está!)
O Diário de um Deus Criacionista, publicado em 2007, numa altura em que o seu autor já tinha 35 anos e um doutoramento em economia, é um livro inquietante.
Não se percebe como alguém, já passada a conturbação hormonal da adolescência, é capaz de escrever aquele texto e além disso considerar que se tratava de matéria publicável.
Pondo-se no lugar de um Deus, seguramente consumidor de psicotrópicos, imagina-se como Criador de um Universo paralelo delirante, brindando-nos com pérolas inclassificáveis, como 3 páginas inteiras de designações para os dinossauros que imaginou, frases do tipo mmmuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiitttttttttttttttttttttoooooooo iiiiiiiiiiinnnnnnnnnnnnnnnntttttttttttttttttttteeeeeeeeeeeeee eeerrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrreeeeeeeeeeeeeeeeeessssssssssssssssssssaaaaaaaaaaaannnnnteeeeeeeeee", a ocupar 3 linhas de texto com duas palavras inchadas e outros delírios de escrita e grafia que não se imaginariam fora de um diário adolescente.
De repente, o que tinha sido uma incipiente simpatia pelo personagem, transformou-se numa preocupação e um alerta para a necessidade de monitorização apertada, para alguém que ocupa atualmente um dos lugares chaves para o futuro do país.
O contexto fez-me recordar uma entrevista da mãe de José Sócrates a Herman José, num dia da mãe, numa altura em que o filho era há pouco tempo ministro do ambiente e em que expondo publicamente uma personalidade muito perturbada, anunciava ao país que o seu filho era um ministro de Geová, como ela, e que o seu Zé ia mudar Portugal - o que de facto aconteceu! (Curiosamente esta entrevista deve ter sido removida dos arquivos da RTP, pois nunca a consegui reencontrar!)
Os menos de 3000 portugueses que tiverem acesso a este livro, têm a obrigação moral de alertar o país para o risco em que está - depois não digam que não foram avisados!
(Lembram-se do último ministro da economia que saiu do Governo a fazer corninhos ...?)
sexta-feira, 17 de junho de 2011
O meu poeta é ...
A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.
Tenho escrito bastantes poemas.
Hei-de escrever muitos mais, naturalmente.
Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto.
Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada,
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.
Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem esforço,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos,
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.
Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer coisa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer coisa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.
7-11-1915
“Poemas Inconjuntos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa.
1ª publ. in Athena, nº 5. Lisboa: Fev. 1925.
Enquanto isso, conforme explicam aqui ...
Fernando Pessoa disse que está bem mais leve depois que passou a ser um só. “Além de mala, aquele Alberto Caeiro não pegava ninguém."
terça-feira, 14 de junho de 2011
"CONNECTICUT YANKEE IN KING ARTHUR´S COURT"
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Mark Twain, considerado o "pai" da literatura americana, escreve em 1889 "Um americano na corte do Rei Artur". Trata-se de uma escrita mordaz e despreocupada, que relata uma viagem espaço temporal de um Yankee de Conneticut que aparece "mágicamente" na Bretanha do século VI, na sequência duma pancada na cabeça.
Dotado dos conhecimentos técnicos e científicos da era Industrial, Hank Morgan corresponde para o bem e para o mal, à imagem que ainda hoje temos dos americanos - empreendedores, autoconvencidos, desconhecedores e indiferentes às realidades culturais, religiosas e sociais, que não as suas.
Introduzindo-se com mestria no círculo próximo do Rei Artur, conseguindo desacreditar o influente mago Merlin e substituindo-se no seu papel de grande feiticeiro - neste caso recorrendo a meios técnico-científicos com 14 séculos de vantagem e não à credulidade popular, o nosso Internauta ascende ao estatuto de The Boss ("o Mestre", na tradução portuguesa), implementando uma série de iniciativas que vão desde a publicidade e o marketing, à formação de escolas técnicas, onde pontifica mesmo uma West Point medieval, onde se formarão os seus lugares tenente.
Despreocupado com a coerência plausível do relato e dotado de um humor próximo do non-sense (retomado quase um século depois por Monty Python e sequelas), Mark Twain equipa a Inglaterra dos cavaleiros da Távola Redonda, de Telégrafos, Caminhos de Ferro, Centrais Elétricas e consegue pôr uma nobreza que considerava inútil e ignorante a maquinistas e guarda freios. E como não tenha sido fácil fazê-los desistir das suas pouco práticas armaduras, cria uma unidade de cavaleiros encasulados em aço, montados em rápidas bicicletas...
De leitura agradável e sempre com um sorriso na mente, o leitor tem permanentes motivos de divertimento, como o nome carinhosamente dado por Sandy, especializada nos relatos infindáveis das façanhas do marido, à filha que concebe do americano - Alô Central, a palavra com que esta abria as comunicações telefónicas.
Contudo o livro não se resume ao resultado da prodigiosa imaginação de Mark Twain em completa roda livre. Reflete de forma muito incisiva sobre questões de todos os tempos - a irracionalidade das massas populares e o papel da crendice e da religião nesse processo, a desconfiança com o novo, a necessidade de recorrer ao mágico e a uma aura de superioridade, em vez da evidência da razão, para se afirmar junto do povo e do poder!
E o fim, é a mais eloquente prova da máxima que "não adianta ter razão antes do tempo" e de que nada se consegue contra tudo e contra todos - mesmo que se detenha o poder máximo, é indispensável ter o apoio e a compreensão dos demais, para se conseguir afirmar. Verdade, que infelizmente ainda hoje os americanos (e outros) parecem não ter percebido.
O livro e a sua "mensagem" principal são de uma atualidade gritante - o "Boss" acolitado pelos seus 52 agentes West Point, consegue, mercê de uma engenhosa tática militar, atingir uma supremacia indestrutível, mas vê-se na iminência de um extermínio em massa, já que não consegue conquistar ninguém para o seu campo. E num arremedo final de bom-senso, apesar do seu poderio supremo, desiste do seu sonho de dominação, abandonando todos os projetos.
Quem olha, despido de preconceitos, para as intervenções dos USA no Vietnam, no Iraque, no Afganistão, na Líbia e aprecia as suas habituais saídas de sendeiro dos teatros de terror que instala, percebe que esse erro já tinha acontecido no sec. XIX, com um Yankee de Conneticut e que houve um escritor de nome Mark Twain que escalpelizou as razões desse infortúnio, sem daí ter resultado grande proveito para a nação que o entronizou como escritor.
quinta-feira, 2 de junho de 2011
REI ARTUR - NOTA HISTÓRICA
Daqui retiro esta resenha histórica:
"O Rei Artur é uma figura lendária Britânica que, de acordo com histórias medievais e romances, teria comandado a defesa contra os invasores Saxões chegados à Grã-Bretanha (ou Bretanha como era conhecida na época) no início do século VI. Os detalhes da sua história são compostos principalmente por folclore e literatura, a sua existência histórica, devido à escassez de antecedentes históricos ou por estes serem retratados em várias fontes, é debatida e contestada por historiadores modernos.
"O Rei Artur é uma figura lendária Britânica que, de acordo com histórias medievais e romances, teria comandado a defesa contra os invasores Saxões chegados à Grã-Bretanha (ou Bretanha como era conhecida na época) no início do século VI. Os detalhes da sua história são compostos principalmente por folclore e literatura, a sua existência histórica, devido à escassez de antecedentes históricos ou por estes serem retratados em várias fontes, é debatida e contestada por historiadores modernos.
A lenda do rei Artur ganha interesse através da popularidade do livro de Geoffrey Monmouth "Historia Regum Britanniae" (História dos Reis Britânicos) embora, o seu nome, tenha surgido em poemas e contos de Gales e da Bretanha, publicados antes deste livro. Neles, Artur surge com um grande guerreiro que defende a Bretanha dos homens e inimigos sobrenaturais e, portanto, associado com o Outro Mundo. Geoffrey descreve o rei Artur como sendo um rei da Bretanha que venceu os Saxões e estabeleceu um Império composto pela Bretanha, Irlanda, Islândia e Noruega.
Na realidade muitos elementos e acontecimentos que fazem parte da história de Artur aparecem no livro de Geoffrey, incluindo Uther Pendragon, pai de Artur, o mágico Merlin, a espada Excalibur, o nascimento de Artur no castelo de Tintagel, Camelot, a sua batalha final em Camlann contra Mordred, e a ilha de Avalon.
A origem do rei Artur tem sido grandemente debatida pelos historiadores e estudiosos. Alguns acreditam que ele é baseado nalguma personagem histórica, provavelmente um chefe guerreiro da Bretanha que tenha vivido entre a Antiguidade Tardia e o inicio da Idade Média, donde terão sido criadas as lendas que hoje conhecemos. Outros acreditam que Artur é pura invenção mitológica, sem nenhuma relação com qualquer personagem real.
Em finais do século V, Ambrosius Aurelianus, um romano da Bretanha, consegue derrotar os Saxões na famosa batalha de Mons Badicus. Entretanto a situação inverte-se e os reinos celtas da Bretanha ficam reduzidos à Cornualha e a Gales.
No século VIII, Nennius, um Bretão, fala dos feitos de um comandante militar de nome Artur, que teria vencido 12 batalhas contra os Saxões. Mas, segundo os historiadores, Nennius tinha uma tendência de preencher lacunas com factos por ele inventados. Ele poderia muito bem ter embelezado a narrativa conforme as necessidades. Não foi ele, no entanto, o primeiro a referir o nome de Artur, já que baladas galesas do século VII, falavam num rei aventureiro do norte da Bretanha, que enfrentava seres fantásticos e corrigia injustiças.
No século VIII, Nennius, um Bretão, fala dos feitos de um comandante militar de nome Artur, que teria vencido 12 batalhas contra os Saxões. Mas, segundo os historiadores, Nennius tinha uma tendência de preencher lacunas com factos por ele inventados. Ele poderia muito bem ter embelezado a narrativa conforme as necessidades. Não foi ele, no entanto, o primeiro a referir o nome de Artur, já que baladas galesas do século VII, falavam num rei aventureiro do norte da Bretanha, que enfrentava seres fantásticos e corrigia injustiças.
Nos finais do século XII, Chrétien de Troyes, escritor francês, escreve contos sobre as aventuras do Rei Artur, Sir Lancelot, Guinevere, o Santo Graal, Percival, Gawain, etc. Ao apoiar-se nos mitos populares, deu-lhes o seu cunho pessoal e iniciou o género de romance arturiano que se tornou numa importante vertente da literatura medieval. Artur e as suas personagens eram muito populares na época e as histórias a partir da Bretanha, tinham-se espalhado por outros países. Salientam-se aqui algumas obras pela importância que tiveram para o nascimento do mito: O ciclo da "Vulgata" francesa (também conhecida como Matéria da Bretanha), "Parzival" de Wolfram von Eschenbach, "La Mort d'Arthur" (A Morte de Artur) de Thomas Mallory.
O romantismo do século XIX fez renascer o interesse pelo tema (inclusive autores americanos como Mark Twain com o seu "Um Americano na Corte do Rei Artur" homenageiam o género).
No século XX, autores como Stephen Lawhead ( O ciclo Pendragon), Bernard Cornwell (O ciclo de "As Crónicas do Senhor da Guerra") e principalmente Marion Zimmer Bradley, conceituada escritora da ficção científica com "The Mists of Avalon" (As Brumas de Avalon) ou a "Saga de Avalon", completaram o trabalho mantendo vivo o interesse.
O romantismo do século XIX fez renascer o interesse pelo tema (inclusive autores americanos como Mark Twain com o seu "Um Americano na Corte do Rei Artur" homenageiam o género).
No século XX, autores como Stephen Lawhead ( O ciclo Pendragon), Bernard Cornwell (O ciclo de "As Crónicas do Senhor da Guerra") e principalmente Marion Zimmer Bradley, conceituada escritora da ficção científica com "The Mists of Avalon" (As Brumas de Avalon) ou a "Saga de Avalon", completaram o trabalho mantendo vivo o interesse.
Sem fim à vista, toda a polémica sobre a existência ou não do Rei Artur, continua bem viva: os historiadores, depois duma crítica ao mito, limitam-se a manter uma reserva sobre o assunto; os arqueólogos (e estudiosos) preferem falar de um período sub-romano, definindo assim aquilo que poderia ser o período arturiano: os séculos V e VI. "
quinta-feira, 12 de maio de 2011
Gigões e Anantes
Gigões são anantes muito grandes.
Anantes são gigões muito pequenos.
Os gigões diferem dos anantes porque
uns são um bocado mais outros são um bocado menos.
Era uma vez um gigão tão grande, tão grande,
que não cabia. – Em quê? – O gigão era tão grande
que nem se sabia em que é que ele não cabia!
Mas havia um anante ainda maior que o gigão,
e esse nem se sabia se ele cabia ou não.
Só havia uma maneira de os distinguir:
era chegar ao pé deles e perguntar:
Mas eram tão grandes que não se podia lá chegar!
E nunca se sabia se estavam a mentir!
Então a Ana como não podia
resolver o problema arranjou uma teoria:
xixanava com eles e o que ficava
xubiante ou ximbimpante era o gigão,
e o anante fingia que não.
A teoria nunca falhava porque era toda
com palavras que só a Ana sabia.
E como eram palavras de toda a confiança
só queriam dizer o que a Ana queria.
MANUEL ANTÓNIO PINA

Foi o primeiro livro que li de Manuel António Pina, em 1974!
Fiquei desde aí cliente da literatura infantil, que na altura era geralmente mais "básica"!
Habituei-me a tê-lo na mesa ao lado no Orfeu(zinho).
Como cronista desencantado (curiosamente ou não, expressa aqui uma opinião idêntica à de um meu post recente) gostei sempre de o ler!
Fico pois muito contente com o Prémio Pessoa 2011!
Anantes são gigões muito pequenos.
Os gigões diferem dos anantes porque
uns são um bocado mais outros são um bocado menos.
Era uma vez um gigão tão grande, tão grande,
que não cabia. – Em quê? – O gigão era tão grande
que nem se sabia em que é que ele não cabia!
Mas havia um anante ainda maior que o gigão,
e esse nem se sabia se ele cabia ou não.
Só havia uma maneira de os distinguir:
era chegar ao pé deles e perguntar:
Mas eram tão grandes que não se podia lá chegar!
E nunca se sabia se estavam a mentir!
Então a Ana como não podia
resolver o problema arranjou uma teoria:
xixanava com eles e o que ficava
xubiante ou ximbimpante era o gigão,
e o anante fingia que não.
A teoria nunca falhava porque era toda
com palavras que só a Ana sabia.
E como eram palavras de toda a confiança
só queriam dizer o que a Ana queria.
MANUEL ANTÓNIO PINA

Foi o primeiro livro que li de Manuel António Pina, em 1974!
Fiquei desde aí cliente da literatura infantil, que na altura era geralmente mais "básica"!
Habituei-me a tê-lo na mesa ao lado no Orfeu(zinho).
Como cronista desencantado (curiosamente ou não, expressa aqui uma opinião idêntica à de um meu post recente) gostei sempre de o ler!
Fico pois muito contente com o Prémio Pessoa 2011!
Fanny Owen

" O rio Douro não teve cantores. Teve-os o Mondego e o Tejo também. Mas, para além das cristas do Marão, em vez do alaúde e da guitarra havia o repique dos sinos ou o seu dobrar espaçado. Havia o tiro certeiro dos caçadores de perdiz, lá pelas bandas da Muxagata e do Cachão da Valeira. E o clarim das guerrilhas ouvia-se através da poeira de neve que cobria os barrancos de Sabroso."
Agustina Bessa-Luís escreve Fanny Owen (1979) como corolário dum trabalho de investigação para os diálogos de Francisca (1981), encomendados por Manoel de Oliveira.
É para mim desde logo agradável o entorno - a rua de Cedofeita, Vilar de Paraíso, a Foz, o Douro, descritos por alguém que conhece e ama essa geografia, que também é a minha.
O romance, assente em factos reais a que Agustina tenta ser o mais fiel possível, recorrendo mesmo a um trabalho de colagem, pondo na boca das personagens frases extraídas dos seus diários, livros ou artigos, comporta dentro de si um segundo nível, ensaístico, em que a autora comenta os sentimentos e acontecimentos, numa perspetiva psicanalítica de distanciamento e interpretação.
A história de Francisca Owen Pinto de Magalhães (1830-1854), no centro de um doentio triângulo de intriga e amor, que opõe Camilo Castlo Branco e o seu "amigo" José Augusto, termina com a morte do infortunado casal.
Agustina transporta-se e transporta-nos, com mestria, para o ambiente romântico da época, onde o amor para soar a verdadeiro tinha que ser mitificado, sendo a felicidade inconcebível sem o adorno do sofrimento.
Não tendo tido nós um Goethe ascético, angustiado, mas profundo, tivemos umas décadas mais tarde uma sua versão manhosa, interesseira e macabra, na figura de Camilo ( Agustina nas suas impressões embebidas no romance, cita profusamente Holderlin (1770-1813) contemporâneo de Schiller e Goethe, também ele declarado louco na sua época.).
Francisca morre mais de amor do que da tuberculose que seguramente tinha?
E as perturbações do humor e do comportamento não seriam também elas consequência da doença, que integra nas suas formas avançadas também uma componente psiquica e emocional bem documentadas!?
E José Augusto seria apenas um doente emocional, refém do seu pretenciosismo provinciano e literário, ou estaria dependente do consumo de opiácios (o miraculoso láudano), de uma overdose dos quais viria provavelmente a falecer, no mesmo ano de Fanny!?
Esta é uma história real, que demonstra que o universo literário de Camilo, não se afastava da sua realidade existencial - relações de amor/ódio, uma burguesia sem referências morais ou culturais sólidas, amigos insanes capazes de solicitar uma autópsia para apurar da virgindade da sua esposa, de quem guardam o coração em álcool, como relíquia macabra de uma veneração doentia!
Um grande romance!
PS: Muito oportunamente esta obra sucedeu no Clube do Livro à "Cidade e as Serras", já que a Quinta do Lodeiro de José Augusto Pinto de Magalhães (na foto), para a qual Fanny foi viver após o seu rapto e atá à sua morte, dista uma pequena caminhada da Quinta da Vila Nova, de Tormes, onde Jacinto viveu o seu romance bucólico e solar.
Como o mesmo espaço geográfico, pode albergar paisagens de alma tão diversas - os girassóis que iluminaram Jacinto na sua chegada a Tormes, deram lugar aqui a crisântemos agoirentos entre brumas de desconfiança e ciúme.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
A Cidade e As Serras

Publicado em 1901, um ano após a morte de Eça de Queiroz, que não terminou sequer a revisão do manuscrito, A Cidade e as Serras é um livro divertido, muito ideológico e que mantém uma enorme actualidade (isto é, é intemporal, como toda a grande literatura!).
De todos os livros do Eça que em tempos li, era aquele do qual guardava uma imagem mais nítida e a impressão de mais ter influenciado a minha visão do Mundo.
A perspectiva mordaz sobre a civilização que constitui a primeira metade do livro, é muito próxima da que reaparece em Playtime (1967) de Jacques Tati - uma sociedade obcecada pela novidade, pelos gadgets tecnológicos e pelo formal em geral, mas desencantada e vazia de valores e objectivos concretos.
Eça de Queiroz contrapõe na segunda parte um romantismo bucólico, de exaltação da vida simples e natural do campo (neste caso, o Douro), ambiente em que Jacinto desabrocha para a realidade da vida (planta as árvores e tem os filhos!), conduzido pela amizade do seu companheiro serrano, Zé Fernandes.
Paris, retratado como o farol de uma civilização que só valoriza o lucro e o prazer, aparece como a quimera enganadora, enquanto a as rústicas terras de Tormes são descritas como uma bênção divina.
É um Eça de Queiroz culto, cosmopolita, que já tudo viu, leu e criticou, aparentemente reconciliado consigo mesmo e com o seu país, este que transplanta um sofisticado e enfastiado Jacinto, de Paris para os xistos durienses e o deixa feliz na sua pele de iluminado aristocrata, a exercer um humanismo caritativo.
Livro sobre o tédio do excesso - de bens, de informação, de tecnologia - é muito oportuno para uma geração (que inadequadamente chamam de rasca) que cresceu sem ter de enfrentar dificuldades materiais, de lutar pela sua liberdade, com acesso a conhecimento e informação nunca antes existentes e que parece tal como Jacinto enfastiada, sem motivação e que se vê no limiar de uma situação nova para a qual não estava preparada.
A única diferença é que não disporá dos "cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival" de Jacinto, que lhe permitiram a sua diletância de socialista idealista.
quinta-feira, 3 de março de 2011
Óscar 2011 para bicicletas e Solex
O óscar para curtas metragens foi atribuído a este filme sobre saudade, que se passa entre bicicletas, apenas incomodadas por uma fugaz Solex.
(Father and Daugther - cerca de 9 minutos)
Também por iso não poderia deixar de o recomendar!
(Father and Daugther - cerca de 9 minutos)
Também por iso não poderia deixar de o recomendar!
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Philip Roth

De Philip Roth, nascido em 1933 e considerado um dos mais importantes escritores americanos vivos, acabo de ler o seu terceiro romance (O Complexo de Portnoy -1969) e já levo a meio "A Mancha Humana" (2000).
De Roth direi que além de ser prolífico (31 romances desde a sua estreia com "Adeus, Columbus" - 1959) e de ter recebido um número infindável de prémios literários, também é :
Um homem - a sua escrita tem uma visão indiscutivelmente falocrática, roçando muitas vezes o misógenismo intolerável. As personagens femininas são descritas na fronteira da anormalidade e tirando a sua mãe, figura omnipresente na sua obra e na sua cabeça, não parece morrer de amor por nenhum exemplar do género.
A sua primeira mulher, Margaret Martinson, de quem se divorciou em 1963, terá sido inspiradora da personagem da Macaca, que tanta perturbação causou a Alexander Portnoy, e da qual não se pode dizer que tenha sido propriamente bem tratada na literatura. A sua segunda mulher, a actriz inglesa Claire Bloom, sentiu-se motivada a publicar uma autobiografia (Casa das Bonecas - 1996), no ano seguinte ao seu divórcio, em que expunha o difícil carácter de Philip. Em resposta foi retratada em "Casada com um Comunista", como uma mulher que arruína o seu marido, ao publicar uma autobiografia pormenorizada do seu casamento.
Um judeu - a obsessão judaica é talvez o selo de água mais distintivo da sua obra. O enquadramento cultural, a culpa, o sentimento de rejeição social e a necessidade da sua superação, estão omnipresentes.
No Complexo de Portnoy, os traumas sexuais são assumidos como uma herança religiosa e educacional da sua origem judaica. E embora a moral judaica seja particularmente castradora e condicionadora, a maioria das circunstâncias relatadas são comuns a outras culturas e particularmente a minorias em fase de ascensão social. A memória duma mãe que não deixa respirar, será comum a todas as culturas mediterrânicas e não só.
Ainda ontem o Público trazia um extenso artigo sobre Amy Chua, uma professora de direito de Yale, de origem chinesa, no centro de uma polémica nos Estados Unidos, por defender que a educação altamente condicionadora a que submeteu as suas filhas, está na origem do sucesso escolar e económico da sua comunidade.
Resta saber, quando chegará a sua vez de pagar em psicanálise o que pensa ter ganho na escola!
Um americano, de Newark, New Jersey - Roth fala do que sabe e por isso o roteiro das suas personagens é o do seu próprio percurso. Nascido na classe média judia de Newark, faz por lá passar quase todos os seus personagens, constituindo-se um observador atento e perspicaz da sociedade americana. Curiosamente, Portnoy, um tarado sexual que entrava em erecção até na presença duma freira, não consegue consumar uma relação quando visita Israel, a Terra Prometida.
Em "Conspiração contra a América" inspirado numa hipótese real (a apresentação do herói aeronáutico Charles Lindberg, simpatizante do nacional-socialismo, como candidato do partido republicano nas eleições de 1940, contra Roosevelt), reescreve a história do Mundo, visto por um miúdo judeu de Newark, assumindo a vitória da direita radical na América, numa altura em que na Europa decorria a segunda grande guerra ...
Nathan Zuckerman - Se todos os livros são aparentemente sobre si próprio, ainda assim sentiu necessidade de criar um alter-ego, escritor de sucesso, que aparece em 10 dos seus livros.
Embora aparentemente o tenha morto em 1987 em Counterlife ("O avesso da vida"), reaparece em "A Mancha Humana", incontinente, após uma prostectomia, e confidente de Coleman Silk, um reitor universitário jubilado, septuagenário, que alimenta com Viagra uma relação com uma mulher de 32 anos.
Roth que se assume como um criador de falsas biografias - ele próprio sugere que a sua infância de classe média era demasiado banal para poder ser relatada - adianta que basta imaginar as pessoas normais a agirem sob pressão, para se transformar a realidade em arte.
Um génio literário - Se há 15 anos Roth aparecia na lista dos 10 mais importantes escritores americanos vivos, hoje merçê da sua pujança literária desde os anos 90, aparece no topo dessa lista.
E a leitura de Roth é efectivamente viciante.
Caracterizando com precisão as suas personagens, não dispersando a atenção do leitor por meandros desnecessários, criando a tal falsa ilusão de descrever factos, dando-lhes uma credibilidade autobiográfica, dominando a técnica da escrita com uma mestria única, Roth lê-se com deleite, mesmo quando o tema nos possa desagradar e a sua perspetiva incomodar. E essa será provavelmente a maior prova do seu génio!
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Complexo de Portnoy

“Ela estava tão profundamente entranhada em minha consciência que, no primeiro ano na escola, eu tinha a impressão de que todas as professoras eram minha mãe disfarçada. Assim que tocava o sinal ao final das aulas, eu voltava correndo para casa, na esperança de chegar ao apartamento em que morávamos antes que ela tivesse tempo de se transformar. Invariavelmente ela já estava na cozinha quando eu chegava, preparando leite com biscoitos para mim. No entanto, em vez de me livrar dessas ilusões, essa proeza só fazia crescer minha admiração pelos poderes dela. Além do mais, era sempre um alívio não surpreendê-la entre uma e outra transformação – muito embora eu jamais deixasse de tentar; eu sabia que meu pai e minha irmã nem faziam ideia da natureza real de minha mãe, e o peso da traição que, imaginava eu, recairia sobre meus ombros se alguma vez a pegasse desprevenida seria demais para mim, aos cinco ano de idade.”
Assim começa o Complexo de Portnoy de 1969, terceiro livro de Philip Roth.
Monólogo de um judeu de trinta e tal anos no consultótrio do psicanalista, é um livro dotado de uma profusa ironia, envolta numa linguagem desbragada e escatológica, que nos leva amiúde ao riso (fácil!).
Roth, que tem a sua obra fortemente alicerçada nas suas memórias autobiográficas (como de resto explicitou em "The Facts - a novelist autobiography" de 1988), transporta-nos aqui para um universo neurótico, que remete para o de Woody Allen - a auto-ironia, as obsessões sexuais, a culpa omnipresente da moral judaica, o ambiente novaiorquino (em Roth, o espaço geográfico de Newark-New Jersey, da sua infância, é o cenário priveligiado da sua obra!).
De Roth já tinha lido "Conspiração contra a América" (2004), livro que me encantou pela forma notável como desenvolve uma ficção histórica improvável e pela maestria da escrita.
Neste "Portnoy´s Complaint", 35 anos mais antigo, venho encontrar muita coisa em comum - o contexto geográfico e sociológico da história, as suas obsessões pela origem judaica, a observação do Mundo através duns olhos infanto-adolescentes.
Tive oportunidade na minha juventude, de viver algumas semanas na casa de uma família judia novaiorquina. Nunca pensei que o peso da história e da tradição pudessem marcar tanto alguém, como percebi ser o caso dos judeus. Não houve serão que não tivesse uma preleção sobre costumes ou a história sionista, visita que não fosse condicionada por essa perspetiva religiosa, mesmo tratando-se duma família pouco praticante, em que os filhos jovens não frequentavam a sinagoga e a esposa se recusava a viver confinada aos clubes sociais da comunidade judia.
Desde aí percebi melhor o forte condicionamento mental, a doentia noção de dever e pecado, que marca este povo.
Portnoy que recusa a religião que lhe saiu no berço, não conseguiu contudo escapar a um fortíssimo complexo de Édipo que lhe saiu no leite - e não esqueçamos que foi outro eloquente judeu, que descreveu cerca de 70 anos antes, este quadro pela primeira vez, embora com menos graça!
Este é o livro do mês do Clube de Leitura, estando este espaço aberto, através dos comentários, às observações que queiram aportar à discussão.
Boa leitura! ( AQUI, pode fazer o download gratuito do livro!)
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
As Vinhas da Ira

Alguém disse, que cada pessoa é ela própria mais as suas circunstâncias!
Este livro, uma saga épica de uma família e dum povo, não podia ser mais demonstrativo desta asserção.
Uma família rural, conservadora, da América profunda, submetida à dura prova da perda da terra, com a sobrevivência em risco, vai, conforme migra para oeste, modificando o seu modo de pensar, a sua dinâmica interna de poder, a sua forma de estar na vida.
Mantendo-se fiel aos seus princípios, radicaliza as suas posições, porque assim lhe ditaram as circunstâncias.
Escrito na perspetiva dos desamparados, faz-nos entrar na sua pele (no que somos ajudados pelo contexto social atual!) e ver o mundo na "perspetiva bolchevista"! Sentimo-nos acossados, "oackies" e respeitamos a sua dignidade intacta, face à sua desesperada situação.
Imaginamos que se fossemos um Californiano "invadido", pensaríamos de forma diversa, atemorizados pela concorrência desleal de quem não tem nada a perder, quiçá roçássemos o chauvinismo, como somos tentados face aos romenos que nos perturbam, porque são sujos, ladrões, capazes de tudo!
As personagens revelam uma pujança quase indestrutível, fortemente ancorada numa coesão familiar que mantêm apesar de todos os malogros que se vão sucedendo. A figura matriarcal, uma verdadeira mãe coragem brechtiana, assume os comandos do destino colectivo, percebendo ser a figura charneira da família.
A escrita tem um tom descritivo detalhado, realista, que nos convoca para a história e nos vai envolvendo irreversivelmente no destino dos Joad. Alternando com os capítulos em que é explanada a história, surgem "intermezos reflexivos", que teorizam ou contextualizam a ação que vai decorrendo.
Há verdadeiras jóias como o capítulo que descreve o negócio do comércio de viaturas usadas e que estou em crer ajudou a criar o arquétipo do "vendedor de automóveis"; ou o diálogo da mãe com o empregado do armazém da quinta onde colhem algodão, em que a sua frontalidade e simplicidade, desmonta desconcertantemente o cinismo verruminoso do lojista.
Os curiosos pela mecânica automóvel, têm neste romance, em que um velho camião é uma das personagens centrais, motivos de júbilo suplementares.
A narrativa é também uma road story ao longo da mítica 66, muito antes de Kerouac lá voltar - em vez dos móteis temos aqui as bermas e os acampamentos clandestinos, o psicadelismo é aqui substituído pela fome e o medo, as trips desta história são o sentimento de injustiça e revolta que vai fermentando.
Depois de ter criado uma intensidade dramática fortíssima, Steinbeck termina o livro com um episódio que foi à época mal aceite e que continuo a achar desnecessário e excessivo, mas que consegue pela sua intensidade rematar a história, deixando contudo em suspenso o destino dos Joad.
Nesta epopeia, um ácido cepticismo sobre a natureza humana, co-habita com a esperança no futuro, pela nossa capacidade, quase sem limites, de sobreviver, nos contextos mais adversos.
O Mundo continua igual quase cem anos depois e embora a envolvência histórica em que decorre a acção nos permita contornar a angústia, torna-se óbvia uma coisa tão simples, mas tão esquecida como esta: aquilo que nos parece adquirido e irreversível, rapidamente desaparece se assim for ditado pelas circunstâncias.
Esperemos que não venhamos nunca a ter as nossas hoovervilles (cavacovilles, socratovilles, sei lá!).
sábado, 29 de janeiro de 2011
Clint Eastwood - nos cinemas!

Sou da opinião que a primeira referência dum filme deveria ser o seu realizador, como num livro é o escritor, ou num quadro, o pintor.
Isto sem menosprezar os outros co-autores da obra, os atores, o diretor de fotografia, o responsável da banda sonora e por aí além.
Claro que um mau elenco ou o elenco errado, dá cabo de qualquer filme, mas dificilmente um bom intérprete redime uma má realização. Os grandes realizadores estão de resto associados a grandes atores e muitas vezes concebem filmes a pensarem especificamente num intérprete.
Vai esta conversa por mesmo no caso de Clint Eastwood, um realizador popular e reconhecido, no cartaz do seu último filme, aparecer em destaque o nome de Matt Damon e não o seu!
Matt venderá mais que Clint, mas não era assim que as coisas deveriam ser!
Sinal dos tempos!
Matt Damon (nasc. 1970) é de resto um dos meus atores preferidos. Desde o Bom Rebelde (1997, real. Gus van Sant), que tenho seguido agradavelmente a sua aparição no ecrã - O Talentoso Mr. Ripley (1999, r. A Minghella), Descobrir Forrester (2000, Gus van Sant), Entre Inimigos ( 2006, M. Scorsese), O Bom Pastor ( 2006, Robert de Niro), isto para além da saga Ocean's e duma série de filmes Político/Policiais (Syriana, Ultimatum) em que a sua personagem "baça", casa bem com o do agente secreto ou clandestino. Damon é um ator ao jeito da escola Actor´s Studio, conseguindo anular a sua personalidade e deixar-se encarnar pela personagem, conferindo grande credibilidade e coerência à interpretação, mas mantendo um registo aparentemente discreto e reservado.
Nesta última obra de Eastwwod, Matt contracena com Cécile de France (nasc.1975), agradável surpresa de origem belga e com carreira até agora quase confinada ao universo francófono ligeiro, no papel de uma apresentadora televisiva de sucesso, que após uma quase-morte num tsunami no Pacífico (que constitui a sequência de abertura do filme e só por si vale a sua visualização), vê a sua vida mudada, interessando-se pela questão da vida para além da morte, tema que a levará a Damon, felizmente ainda em vida e aparentemente com muito futuro e proveito para ambos.
Há ainda um terceiro (duplo) personagem, um par de gémeos londrinos, que partilham esta história de três afluentes (S.Francisco, Paris, Londres), numa aproximação a esta temática metapsiquica - a existência de vida depois da morte - que é apenas esboçada e sugerida, não havendo propriamente uma tese sobre o assunto. ( Este é pois um filme candidato a uma bolsa da Fundação Bial. )
Independentemente do que se pensar sobre o assunto, a situação do gémeo sobrevivente, parece ilustrar uma verdade incontornável - há momentos, seja qual for o método utilizado, em que é preciso resolver a culpa, as dependências, apaziguarmo-nos connosco próprios, para seguir em frente e reencontrar a felicidade.
Clint Eastwood não terá aqui um dos seus melhores filmes, mas evita cair em demagogias sobre um tema delicado e consegue um todo coerente.
Dele direi, que nunca me fez sentir a perder o meu tempo, a ver qualquer uma das suas obras.
E nunca esquecerei As Pontes de Madison County (1995), em que contracena com a melhor Meryl Streep de que tenho memória, Bird (1988), uma biografia de Charlie Parker, onde filma o Jazz de uma forma soberba, Million Dollar Baby (2004), onde aborda profundamente o tema da eutanásia, sem ninguém quase dar por isso.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
As Viagens de Gulliver
Sendo um dos clássicos da literatura, que consta em todas as listas das mais importantes obras de sempre, já está na pilha dos livros a ler há bastante tempo.
Obra de Jonathan Swift, datada de 1726, aparece habitualmente classificada na literatura infanto-juvenil, embora constitua uma mordaz crítica da sociedade inglesa e francesa da época.
Gulliver é um médico, transformado em capitão de navio que vive inacreditáveis aventuras em ambientes inesperados - são ao todo 4 as suas viagens, sendo a primeira à ilha de Lilliput (onde as pessoas mediam à volta de 15cm de altura) e a segunda a Brobdingnag (com habitantes gigantes de 10 metros de estatura), as mais conhecidas.
Este livro que já originou incontáveis sequelas e imitações, gravuras, ilustrações, obras musicais (uma famosa suite de Telemann), já teve um imenso rol de versões para televisão e cinema.
Apareceu agora mais uma versão cinematográfica com o ator Jack Black no lugar de Gulliver..
Versão "infantilizada" da obra, dá uma versão contemporânea da viagem a Lilliput, com uma referência de passagem a Brobdingnag, que parece metida a martelo e amputada de sentido.
Não explorando o lado sociológico do livro, trata-se apenas de um divertimento um pouco bacôco, que nos seus melhores momentos não vai além de nos fazer sorrir.
Depois de Shrek, onde ficou patente no cinema, que uma obra infantil pode ter múltiplos níveis de leitura, tornando-se um produto cultural global, é muito redutor ver uma obra que já tinha tido essa ambição 300 anos antes, reduzida a esta menoridade.

A versão BD, para adultos, de Milo Manara, continua a merecer uma leitura!
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Vai uma bengalada!
"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.
Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."
Abílio Guerra Junqueiro, 1896, in "A Pátria"
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.
Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."
Abílio Guerra Junqueiro, 1896, in "A Pátria"
domingo, 16 de janeiro de 2011
Retrato da Grande Depressão
O autor do mês do Clube de Leitura é John Steinbeck (1902-1968).
"As Vinhas da Ira" (1939), que no ano seguinte à sua publicação receberia o Prémio Pulitzer e seria levado ao cinema por John Ford (óscar de melhor realizador, com Henry Fonda, Jane Darwell e John Carradine), é consensualmente considerado um dos seus mais importantes livros e foi o livro escolhido para este mês, pelos participantes no clube de leitura.
Tendo por pano de fundo a América dos anos 30, relata a saga dos Joad, uma família rural de Oklahoma, obrigada a migrar para Oeste pela seca e a industrialização da agricultura.
Livro muito oportuno nos tempos que correm, já que os tempos que se avizinham, poderão ter económica e socialmente muito em comum com os da Grande Depressão Americana, que precederam a segunda grande guerra.
De Steinbeck, li na minha juventude "A um Deus Desconhecido", seu segundo romance, que me marcou profundamente, sendo o seu carvalho "totémico", uma das inspirações a que frequentemente retorno.
Nas muitas listas de livros mais importantes (de sempre, do século), que têm sido publicadas e para as quais deixo links a seguir, esta obra maior da literatura americana, que esteve na origem da atribuição do Nobel em 1962, é uma presença assídua.
110 melhores livros — A Biblioteca Perfeita do "The Telegraph"
100 melhores livros do "The Guardian”
Clube de Leitura da Oprah
Lista dos livros mais vendidos de sempre da Wikipédia
100 melhores romances do século XX do Radcliffe Publishing Coorte
100 melhores romances da Modern Library
Lista da "Newsweek” das suas 50 escolhas atuais.
100 melhores romances em língua inglesa desde 1923 da "Time"
Livros do século da New York Public Library
Lista de leitura do St. John's College
Os 100 livros do século do "Le Monde"
"Pela grossura da camada de pó que cobre a lombada dos livros de uma biblioteca pública pode medir-se a cultura de um povo." John Steinbeck.
Continuemos pois a retirar pó das estantes!
Boa leitura!
Continuemos pois a retirar pó das estantes!
Boa leitura!
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
82 velas!

" O "Petit Vingtième" sempre desejoso de satisfazer os seus leitores e de os manter ao corrente do que se passa no estrangeiro, acaba de enviar à Russia Soviética um dos seus melhores repórteres - TINTIN!" -
Assim começava a 10 de Janeiro de 1929 a saga deste herói tão especial que nos ajudou a ser felizes e a melhor compreender o Mundo.
Parabéns e obrigado!
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Prenda de Fim de Ano!
Aproveito para desejar aos amigos um início de ano auspicioso!
Deixo-os com a deliciosa revista Alice, para que desfrutem!
F
Sugiro o fantástico livro de António Jorge Gonçalves!

E a original fotobiografia de Feltrinelli por pedro piedade marques!
Para lerem e se quiserem descarregar em PDF!
Deixo-os com a deliciosa revista Alice, para que desfrutem!
F

Sugiro o fantástico livro de António Jorge Gonçalves!

E a original fotobiografia de Feltrinelli por pedro piedade marques!
Para lerem e se quiserem descarregar em PDF!
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